Comércio exterior
Setor nacional de celulose reage a avanço de importações asiáticas
Setor afirma que a entrada de grandes volumes do produto, a preços mais baixos que os nacionais, ameaça a participação das fabricantes brasileiras no próprio mercado interno
A indústria brasileira de celulose e papel entrou em alerta com o aumento das importações de papel sulfite produzido na Ásia, principalmente na China e na Indonésia. O setor afirma que a entrada de grandes volumes do produto, a preços mais baixos que os nacionais, ameaça a participação das fabricantes brasileiras no próprio mercado interno.
A preocupação levou a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), entidade que representa cerca de 50 empresas produtoras de papel e celulose, a solicitar ao governo federal uma elevação da tarifa de importação do chamado papel “cutsize”, utilizado nas tradicionais folhas A3 e A4. O pedido é para que o imposto suba de 16% para 30%, limite permitido pela Tarifa Externa Comum do Mercosul.
Segundo a entidade, o movimento é consequência da reorganização do comércio internacional após as barreiras impostas pelos Estados Unidos a produtos asiáticos. Com dificuldades para acessar o mercado norte-americano, fabricantes da China e da Indonésia passaram a direcionar parte do excedente de produção para outros destinos, incluindo o Brasil.
Dados reunidos pela Ibá apontam que as importações de papel sulfite cresceram 160% entre janeiro e maio deste ano na comparação com o mesmo período anterior, passando de 3,3 milhões para 8,5 milhões de quilos. Em valor, as compras externas avançaram 123%, de US$ 2,9 milhões para US$ 6,3 milhões.
O setor afirma que a queda nos preços internacionais aumentou a pressão sobre os fabricantes nacionais. O valor médio do papel importado caiu de US$ 0,90 para US$ 0,77 por quilo, redução de 14%. De acordo com a Ibá, produtos estrangeiros chegam ao consumidor com preços entre R$ 7 e R$ 35 inferiores aos de marcas produzidas no Brasil.
“O cenário atual é de crescente preocupação das produtoras domésticas desses papéis cutsize, que têm sido afetadas negativamente pelo aumento exponencial recente do volume de importações no Brasil a preços injustificadamente agressivos”, afirmou a entidade no pedido encaminhado ao governo.
O Brasil possui uma indústria consolidada de papel e celulose, com capacidade instalada superior ao consumo interno. As fábricas nacionais conseguem produzir o equivalente a 143% da demanda doméstica, mas o setor aponta que a pressão das importações pode reduzir investimentos e ampliar a ociosidade das plantas brasileiras.
Para a Ibá, o setor enfrenta uma combinação de fatores: a dificuldade de ampliar exportações e, simultaneamente, a perda de espaço no mercado interno para produtos asiáticos.
“Nessa desordem do sistema internacional, a China passa a buscar outros mercados porque perdeu o mercado americano. O Brasil é um desses mercados”, afirmou o diretor internacional da Ibá, José Carlos da Fonseca Júnior.
Segundo ele, produtos fabricados no exterior com celulose brasileira exportada para a China acabam retornando ao país a preços inferiores aos praticados pela indústria nacional. “Nunca dependemos de protecionismo. Ao contrário, conquistamos mercados, mas recorremos agora porque o cutsize é um fenômeno recente, que passou a chegar ao país a preços abaixo da nossa própria competitividade local”, disse.
Além do papel sulfite, a entidade também apresentou pedido relacionado ao papel-cartão, utilizado em embalagens de medicamentos, alimentos e produtos de higiene. O setor solicita aumento da tarifa de importação do produto, alegando que o cenário de concorrência internacional se agravou.
Os Estados Unidos já aplicam medidas antidumping e tarifas adicionais sobre papéis produzidos na China e na Indonésia, enquanto investigam o excesso de capacidade industrial chinesa e práticas comerciais consideradas desleais.