Tempo é um ativo logístico
No fim, uma hora economizada não é apenas uma hora a menos no relógio. É uma hora que pode significar um caminhão rodando, um equipamento disponível, um estoque menor, uma carga liberada ou uma nova operação realizada. Tempo, portanto, é um ativo logístico. E, como todo ativo, precisa ser medido, administrado e valorizado.
Em logística, raramente o tempo aparece nos balanços como um ativo. Ainda assim, poucas variáveis têm impacto tão direto sobre os custos, a produtividade e a competitividade de uma operação.
Cada hora em que uma carga permanece parada representa um recurso que não está sendo utilizado da melhor maneira. Cada espera adicional de um caminhão, cada atraso na liberação de um contêiner ou cada dia a mais de permanência de uma mercadoria geram efeitos que se acumulam ao longo da cadeia. Por isso, discutir eficiência logística é, necessariamente, discutir tempo.
A questão ganhou ainda mais relevância à medida que as cadeias de suprimentos se tornaram mais complexas. Empresas trabalham com estoques menores, prazos mais apertados e operações cada vez mais integradas. Neste ambiente, previsibilidade passou a ter quase o mesmo valor que velocidade.
Não basta transportar mais rapidamente. É preciso reduzir as incertezas e eliminar os tempos que não agregam valor à operação. Uma hora economizada no deslocamento ou na liberação de uma carga pode parecer pouco quando analisada isoladamente. Porém, multiplicada por centenas ou milhares de operações, transforma-se em ganho econômico significativo.
O raciocínio vale para toda a cadeia. Menos tempo de espera gera menor consumo de combustível, melhor utilização da frota e maior produtividade dos equipamentos. Menor permanência de cargas significa liberar espaço para novas operações. Processos mais rápidos reduzem a necessidade de estoques elevados e permitem que empresas trabalhem com maior previsibilidade.
O efeito também chega ao transporte rodoviário. Quando um caminhão passa menos tempo esperando para carregar ou descarregar, sua capacidade produtiva aumenta. Em vez de realizar menos viagens por causa de filas e períodos improdutivos, o mesmo ativo pode ser utilizado mais vezes em atividades que, efetivamente, geram receita.
Em uma operação logística, portanto, o relógio também produz resultado. E este conceito é, particularmente, importante para um país como o Brasil, que ainda convive com custos logísticos elevados e gargalos estruturais. Em muitos casos, não é necessário apenas construir uma nova infraestrutura para ganhar eficiência. Há também um enorme potencial em utilizar melhor aquilo que já existe.
Em outras palavras, reduzir uma espera, organizar melhor um fluxo, integrar informações e antecipar uma etapa burocrática podem produzir ganhos relevantes, sem que seja necessário ampliar imediatamente a capacidade física.
Isso não significa, evidentemente, que investimentos em infraestrutura sejam dispensáveis. Ao contrário. Portos, ferrovias, rodovias, terminais e áreas de apoio precisam acompanhar o crescimento da demanda. Entretanto, infraestrutura e gestão precisam caminhar juntas.
Uma estrada mais eficiente perde parte de seu potencial quando o caminhão fica horas parado na origem ou no destino. Um terminal com equipamentos modernos não consegue entregar produtividade máxima se os fluxos de entrada e saída não estiverem coordenados. Uma ferrovia com capacidade disponível não resolve sozinha um problema quando a carga não consegue chegar até ela de maneira eficiente.
A competitividade logística nasce, justamente, da integração desses elementos. É por isso que o tempo precisa deixar de ser tratado apenas como consequência da operação e passar a ser considerado um indicador estratégico.
Quanto tempo uma carga permanece parada? Quanto tempo um caminhão leva para completar um ciclo? Quanto tempo é consumido em processos que poderiam ser automatizados? Quanto tempo existe entre a chegada da mercadoria e sua efetiva disponibilização ao cliente? São perguntas simples, mas que podem revelar custos que muitas vezes permanecem escondidos.
Em mercados cada vez mais competitivos, empresas não disputam apenas preço. Disputam também prazo, confiabilidade e capacidade de resposta.
O cliente que recebe sua mercadoria no tempo previsto consegue planejar melhor. A indústria que reduz o tempo de abastecimento ganha flexibilidade. O exportador que diminui a permanência de sua carga reduz custos e aumenta sua capacidade de competir internacionalmente.
No fim, uma hora economizada não é apenas uma hora a menos no relógio. É uma hora que pode significar um caminhão rodando, um equipamento disponível, um estoque menor, uma carga liberada ou uma nova operação realizada.
Tempo, portanto, é um ativo logístico. E, como todo ativo, precisa ser medido, administrado e valorizado.
Em um setor no qual pequenas ineficiências se multiplicam por milhares de operações, aprender a economizar tempo pode ser uma das formas mais eficientes de reduzir custos, melhorar o fluxo de cargas e aumentar a competitividade brasileira.
Beto Umbuzeiro escreve para o BE News quinzenalmente, com seus artigos publicados sempre às quintas-feiras.