Estilo BE
“A música é o meu lugar”

Paulo Santos da Silva Júnior era um bebê diferente. Não engatinhou e já saiu andando na ponta dos pés. Não conseguia tomar água ou alimentos sólidos, foi amamentado pela mãe até quase 4 anos de idade e a seletividade alimentar demorou a passar. O pai precisou aprender a cortar seu cabelo, porque ele tinha tanta sensibilidade que não suportava ir ao barbeiro.
Hoje, aos 34 anos, Paulo é compositor e professor de música (violão, bateria, guitarra, percussão e ukelelê) e agradece pelos pais que sempre o criaram para fazer tudo do que os outros garotos de sua idade faziam, mesmo enfrentando vários desafios.
O primeiro foi conseguir o diagnóstico na infância, em uma pequena cidade da Bahia chamada Belmonte, na década de 90. Por destino ou sorte, o clínico geral da cidade que cuidava da sua mãe notou que ele era diferente das outras crianças. Como era muito estudioso descobriu nele as características de autismo bem cedo.
A mãe, dona Efigênia, é pedagoga e já tinha percebido alguns comportamentos fora do padrão no filho mais novo (são mais dois irmãos, o mais velho também diagnosticado com Autismo 1, mas só fechou diagnóstico adulto). Na época não existiam pesquisas mais aprofundadas como hoje e laudos precisos.
Quando veio o diagnóstico, os pais de Paulo entenderam que era preciso acolher e dar segurança. A mãe alfabetizou o garoto em casa e ele entrou direto no primeiro ano. Como estava muito à frente da classe, foi transferido para o segundo ano.
Interagir com as outras crianças não era fácil, mas ele tentou. Primeiro ele memorizava e terminava as tarefas mais rápido do que os outros alunos, então tentava ser mais lento para se adaptar, mas faltava o estímulo para atender à sua expectativa.
A aula de Educação Física era um sacrifício: “Os gritos me incomodavam, era um excesso de estímulo, parecia que eu estava em um mundo hostil. O professor entendeu, e durante a aula eu ficava lendo na biblioteca, foi bem melhor.”
Desde criança só queria instrumentos musicais de brinquedo e as primeiras tentativas de buscar sons foram as panelas da mãe. A música chegou como salvação: “Minha memória sempre foi mais sensorial. Eu enxergava as cores nos sons: o sol e o dó, por exemplo, para mim são o verde e o azul. Quando escrevo uma partitura é como se estivesse pintando um desenho”, revela.
Se ainda hoje há preconceito e desconhecimento sobre o autismo, dá para imaginar a preocupação dos pais: “Eles não queriam que eu me sentisse ou que os outros me vissem como incapaz. Muitas vezes o laudo passa a ser usado como escudo pelos pais, limitando e superprotegendo. Desde pequeno minhas emoções eram à flor da pele e hoje felizmente eu consigo sublimar tudo para o meu trabalho, para a minha música.”
O que poderia ser um problema virou um facilitador: “Eu sinto os detalhes da música de uma forma que os outros não sentem. Quando eu entrei com 7 anos no Conservatório de Itabuna eu me encontrei, com 13 anos fui convidado para dar aulas de violão clássico nessa escola.”
Paulo também morou em Porto Seguro e conheceu a esposa quando teve um problema sério no braço e ela era a fisioterapeuta que cuidou dele. O casal veio para Santos para ficar mais próximo das empresas de instrumentos com quem trabalha, que estão em São Paulo. Sabia que numa cidade de praia ficaria melhor.
Os primeiros tempos em Santos foram mais complicados, mudanças mexem com ele. Se tiram uma cadeira do lugar ele sabe. “Vou encontrando minha zona de conforto e crio estratégias para as situações que me incomodam. Depois que eu entendi o que acontecia comigo, fiquei muito mais tranquilo.”
Ele costuma dizer uma frase que resume bem o desenrolar de sua vida: “Um autista 1 de Suporte é muito estranho para ser normal e é muito normal para ser estranho, eu ficava num limbo total. até me encontrar como músico. Depois de adulto eu tive consciência que quando criança e adolescente eu aprendi a emular no normal, eu copiava o que os outros faziam. Mas não tinha amigos, sempre fui um lobo solitário.”
O caminho da música veio sem volta e Paulo vai afinando suas emoções. Se está fazendo um show, o barulho em volta não perturba, mas quando acaba ele é o primeiro a sair. “No palco e na música não há insegurança. É como se eu estivesse dentro de uma bolha de proteção e nada me atinge. Se tem muita gente em volta eu fico prestando atenção em tudo, fico sem foco. Minha esposa Sandra só de olhar já sabe quando eu não estou bem.”
Paulo tem composições clássicas e populares espalhadas em muitos cantos, para ele é muito fácil compor, habilidade que desenvolveu quando trabalhou como músico de estúdio. Atualmente ele tem seu home estúdio e tem alguns patrocinadores para o desenvolvimento de produtos musicais.
Compara sua trajetória como se estivesse num quebra-cabeça, mas sempre faltando uma peça. “A peça que faltava era a música. Acho que as mães de crianças com espectro autista sentem muito medo do futuro. É preciso que os pais aprendam a dessensibilizar e procurem o hiperfoco dos filhos. Pode ser música, dança, pintura, cada um tem o seu.”
Para ele, a música transforma qualquer pessoa, envolve os dois hemisférios do cérebro, a coordenação e muitos outros benefícios. “A música é meu ponto de segurança”, diz com orgulho
PS: Paulo é meu professor de percussão e ele é excelente!