Estilo BE
As lições de Machado de Assis para a vida

Questões ligadas à saúde mental, responsabilidade e “normalidade” que tanto preocupam empresários e seus colaboradores, já estavam presentes na obra do escritor que completaria 187 anos no dia 21 de junho e continuam atuais nos debates que ocupam tribunais, consultórios e universidades nos dias de hoje.
O doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), psiquiatra, professor, autor e colunista Daniel Martins de Barros lançou a versão ampliada de “Machado de Assis: a loucura e as leis”, publicada pela Matrix Editora, conectando Literatura, Psiquiatria e Direito por meio da análise de contos do renomado autor brasileiro. No livro, Daniel conduz o leitor pelos contos emblemáticos que revelam como Machado antecipou debates da psiquiatria moderna e expôs, com ironia e lucidez, os riscos do autoritarismo travestido de ciência. Os doze contos selecionados versam sobre crimes passionais, sadismo, burnout em cuidadores, simulação de doenças, jogo patológico e a validade jurídica de testamentos feitos por suicidas. Confira entrevista exclusiva para a coluna Estilo BE.
O que faz da Literatura uma ferramenta para entender o comportamento humano?
Os escritores têm uma capacidade de olhar para a realidade com uma sensibilidade única de traduzir essa realidade com foco em alguns aspectos de maneira que conseguimos enxergar mais do que enxergávamos antes de ler. Machado de Assis é inevitável, quando se pensa em literatura brasileira e mundial atemos que considerar Machado como um grande analista da alma humana.
Por que se interessou pelo tema?
Pensando sobre “Alienista” procurei outras obras os pontos em que falavam de alguma maneira sobre transtornos mentais e encontrei esses livros com esse recorte. Muitos autores falam sobre transtornos mentais, autores realistas e contemporâneos, é um tema inescapável na literatura. É uma relação bem próxima. Freud, por exemplo, se sentia uma alma gêmea do do autor austríaco Arthur Schnitzler, que escreveu a novela psicológica Breve Romance de Sonho.
Depois da pandemia, houve um aumento de problemas mentais? Quais os tipos de transtornos mais frequentes e em que faixas de idade?
Durante a pandemia teve um pico de incidência de ansiedade, principalmente, em alguns extratos da população, sobretudo mulheres, um aumento de quadros depressivos, mas é difícil traduzir se esses casos se perpetuaram. A sociedade não está mais doente por conta da pandemia.
O que mudou na classificação de doenças mentais que seu livro atualiza?
Nessa nova edição do livro eu complementei com mais algumas atualizações legais, como o estatuto da pessoa com deficiência, que muda o quadro da incapacidade por doença mental do que propriamente as doenças mentais.
Em que conto aparece o burnout na obra de Machado?
O burnout não é por si só uma doença mental. Ela leva a uma doença. Ele pode ser encontrado em um conto chamado “O enfermeiro”, que conta muito da história do relacionamento com o paciente. Esses profissionais, durante a pandemia, foram os primeiros a serem diagnosticados com esse quadro.
Como aparece a loucura, na ficção machadiana?
Ela nunca é apenas patologia. É categoria social, instrumento de controle e espelho desconfortável da normalidade. Em um momento em que debates sobre saúde mental, imputabilidade penal e direitos de pessoas com transtornos mentais ocupam o centro das discussões jurídicas e políticas brasileiras, a ficção como ferramenta de compreensão do que a técnica ainda não consegue nomear.
Nos dias de hoje você diria que Machado continua atual?
Machado continua atual como sempre, é um clássico. Cito na nova conclusão do livro que Ítalo Calvino diz que clássico é um livro que nunca acaba de dizer o que tem para dizer. Nesse sentido, Machado faz um mergulho tão profundo na alma humana que é eterno, sem dúvida nenhuma.
Como a literatura pode ajudar o leitor comum a encarar suas questões mentais?
A literatura ajuda a gente a enxergar melhor a nossa própria vida, as nossas próprias questões, pensar sobre a tristeza, sobre o medo, sobre o amor… E pensando melhor sobre essas questões a gente conseguimos nos entender e lidar melhor com as nossas próprias questões emocionais.