Ferrovias
Atrasos empurram pacote ferroviário de R$ 140 bilhões para 2027
Dos oito trechos previstos para concessão, a maior parte teve cronograma revisto diante da complexidade dos projetos
O plano do governo federal de conceder à iniciativa privada oito trechos ferroviários ao longo de 2026 enfrenta atrasos significativos e já foi, em grande parte, adiado para 2027. A carteira de projetos, estimada em R$ 140 bilhões em investimentos — além de outros R$ 516 bilhões relacionados à operação das malhas — não cumpriu o cronograma inicialmente previsto pelo Ministério dos Transportes.
A proposta original previa a publicação dos editais ao longo deste ano, com leilões realizados cerca de três meses depois. No entanto, nenhum dos prazos foi atendido, obrigando o governo a reformular completamente o calendário.
Segundo o Ministério dos Transportes, os atrasos refletem a complexidade e o caráter inovador da nova política ferroviária, que busca ampliar a segurança jurídica, regulatória e financeira dos projetos. Entre os principais entraves estão ajustes em estudos técnicos, a elaboração dos editais pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e a tramitação das propostas no Tribunal de Contas da União (TCU).
A revisão mais significativa envolve os projetos da antiga Malha Sul, que exigirá ampla reconstrução. Os trechos dos corredores Paraná-Santa Catarina, Rio Grande e Mercosul, antes previstos para leilão em dezembro de 2026, foram postergados para março de 2027.
Outro projeto impactado é a extensão norte da Ferrovia Norte-Sul, entre Açailândia (MA) e Barcarena (PA), cujo leilão foi adiado de março para outubro de 2027. Já iniciativas consideradas estratégicas, como a Ferrogrão e o corredor Fico-Fiol, também tiveram seus cronogramas alterados e agora são previstos, com incertezas, para dezembro deste ano.
Apesar dos atrasos, três projetos ainda apresentam possibilidade de avanço em 2026. O Anel Ferroviário Sudeste (EF-118), que ligará o norte do Rio de Janeiro ao Espírito Santo, foi reprogramado para setembro. O corredor Minas-Rio, em análise no TCU, deve ir a leilão em outubro. Já a Malha Oeste, que prevê a reconstrução de 1.593 quilômetros entre Mato Grosso do Sul e São Paulo, tem previsão de oferta em novembro.
Diante do novo cenário, o governo passou a apresentar os cronogramas revisados a investidores nacionais e estrangeiros, além de adotar medidas para tornar os projetos mais atrativos. Entre elas estão mecanismos de investimentos cruzados, aportes públicos, garantias via fundo de infraestrutura e ações para reduzir riscos de demanda.
Especialistas avaliam que os atrasos não surpreendem, diante da complexidade dos projetos e da necessidade de reestruturação de trechos antigos. Para o setor, a prioridade deve ser a consistência dos estudos e a atratividade dos ativos, evitando o risco de leilões sem interessados.
Paralelamente, o governo também tem avançado na revisão e renovação de contratos ferroviários vigentes, incluindo concessões operadas por grandes empresas do setor, em uma tentativa de reequilibrar acordos considerados pouco vantajosos e fortalecer a malha ferroviária nacional.