Brasil Export
Barco Infância Protegida leva rede de proteção a crianças do Marajó
Projeto apresentado durante Encontro Feminino do Grupo Brasil Export terá investimento de R$ 7,5 milhões
A dificuldade de acesso a serviços públicos nas comunidades ribeirinhas do arquipélago do Marajó (PA) motivou a criação de um projeto que pretende levar atendimento integrado a crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência sexual por meio de uma embarcação. Desenvolvido pela Childhood Brasil em parceria com o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), o Ministério Público do Estado do Pará e o Governo do Pará, o Barco Infância Protegida está em fase de captação e busca reunir R$ 7,5 milhões para sua implantação.
A iniciativa foi apresentada durante o painel “Contribuições do setor de infraestrutura para novos horizontes de sustentabilidade e proteção social”, no Encontro do Conselho Feminino do Grupo Brasil Export, em Brasília. Na ocasião, o gerente de Advocacy e Relações Governamentais da Childhood Brasil, Thiago Vizioli, destacou que o projeto conecta desenvolvimento econômico e responsabilidade social em regiões impactadas por corredores logísticos.
Segundo ele, a proposta surgiu a partir de uma provocação do CNMP diante da realidade do Marajó. “Em uma região onde muitos municípios estão a mais de dez horas da capital, não faz sentido esperar que as vítimas cheguem aos serviços públicos. É preciso levar o Estado até elas”, afirmou.
A iniciativa foi apresentada à fundadora da Childhood Brasil, rainha Silvia da Suécia, que aprovou o engajamento da organização. Posteriormente, foi firmado um Acordo de Cooperação Técnica entre o CNMP, o Ministério Público do Pará e o governo estadual. Após a implantação, a embarcação será doada ao Estado, responsável pela continuidade da operação.

Maquete do Barco Infância Protegida (Foto: Divulgação)
Atendimento integrado
O barco funcionará como um Centro de Atendimento Integrado Flutuante (CAIF), reunindo atendimento psicossocial, consultório médico, perícia, delegacia especializada, sala de depoimento especial e atuação do Ministério Público. O objetivo é reduzir deslocamentos e evitar a revitimização de crianças e adolescentes.
Além da construção e equipagem da embarcação, a Childhood Brasil será responsável por estruturar protocolos de atendimento e capacitar equipes das áreas de saúde, assistência social, segurança pública e justiça. “Nosso papel é garantir que o serviço seja permanente e preparado para atender essa população”, disse Vizioli.
O projeto foi desenhado por professores do curso de Engenharia Naval da Universidade do Pará e orçado em R$ 7.5 milhões. A Childhood está captando recursos por meio de cotas de R$ 500 mil reais que podem ser adquiridas pela iniciativa privada. Até o momento, o Barco tem como apoiadores o SEST Senat, Grupo Sada, Tiffany & Co e a plataforma filantrópica Oportunidade do Bem, e novas parcerias seguem em negociação.
Infraestrutura e responsabilidade social
Durante a apresentação, Vizioli defendeu que a iniciativa amplia o papel social das empresas de infraestrutura, especialmente em regiões impactadas por grandes obras. Segundo ele, o avanço dos investimentos no Arco Norte, com novos terminais, rodovias e corredores logísticos, aumentou o fluxo de pessoas e pode ampliar a vulnerabilidade de comunidades.
“O setor de infraestrutura tem capilaridade e presença nacional. Essa capacidade também pode ser usada para fortalecer a proteção social nos territórios onde atua”, afirmou.
O gerente lembrou que o crescimento dos investimentos na Região Norte, a partir de 2015 e 2016, coincidiu com a piora de indicadores relacionados à exploração sexual em áreas de grande circulação de trabalhadores.

Marajó é integrada por ilhas e cidades com acesso principalmente por rios. (Foto: Letícia Antum/Ag CNJ)
Modelo
Embora tenha sido concebido para o Marajó, o modelo poderá ser replicado em outras regiões remotas do país. Vizioli ressaltou que o projeto busca enfrentar a baixa presença estatal sem reforçar estigmas sobre a região.
“Queremos reconhecer o potencial do Marajó e contribuir para reduzir desigualdades históricas com o fortalecimento da presença do Estado”, disse.
A expectativa é que o Barco Infância Protegida seja o primeiro de uma série de iniciativas que aproximem o setor de infraestrutura das agendas sociais. “O impacto positivo pode alcançar comunidades vulneráveis que convivem com grandes empreendimentos. Esse é o legado que buscamos construir”, concluiu.