Mineração
Brasil busca aproximar mineração e indústria para agregar valor a minerais críticos
Debate reúne setor produtivo e governo em torno de investimentos, refino, tecnologia e formação de mercado para ampliar participação brasileira nas novas cadeias minerais
O Brasil precisa transformar sua vantagem geológica em minerais críticos em capacidade industrial e tecnológica para capturar uma parcela maior do valor gerado por recursos estratégicos para a transição energética e as novas cadeias globais de suprimento. O caminho passa por mais investimentos em pesquisa, processamento e refino, além de uma aproximação maior entre mineração e indústria.
O tema foi discutido na segunda edição do Café com a Indústria, promovido pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), em Brasília. O encontro ocorreu na quarta-feira (2), mesmo dia em que o Senado aprovou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que segue para sanção presidencial.
Para o presidente da ABDI, Olavo Noleto, o país reúne condições favoráveis diante da combinação entre reservas minerais e aumento da demanda mundial por matérias-primas estratégicas. O desafio, segundo ele, é desenvolver cadeias produtivas capazes de processar e industrializar uma parcela maior desses recursos no Brasil.
“Entendemos que apoiar cadeias produtivas no sentido de elas poderem processar, industrializar essa matéria-prima brasileira é fundamental. Isso não é um processo simples. Requer muito estudo, muito planejamento, investimento e muita capacidade de articular o setor público e privado”, afirmou.
O gerente-executivo da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa Mineral e Mineração (ABPM), Miguel Nery, destacou que essa estratégia depende da capacidade de atrair capital desde a descoberta de novos depósitos até as etapas de transformação. Também é necessário, segundo ele, garantir mercado para os produtos dos novos projetos, no Brasil ou no exterior.
“É fundamental que a política de minerais críticos conduza para o desenvolvimento de instrumentos que permitam a atração de investimentos que deve repercutir tanto para a pesquisa mineral quanto para a agregação de valor”, disse.
A presidente do Conselho da Associação de Minerais Críticos (AMC), Marisa Cesar, chamou atenção para a necessidade de o país avançar além da extração e das primeiras etapas de beneficiamento. Para ela, a agregação de valor passa pela instalação de etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva em território nacional.
“Discutimos a importância de trazer o refino para o país, e isso passa pela industrialização”, afirmou.
A nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos prevê instrumentos voltados justamente a esse objetivo. Segundo o secretário de Desenvolvimento Industrial, Inovação, Comércio e Serviços do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Uallace Moreira, o texto inclui mecanismos financeiros e benefícios fiscais destinados a estimular investimentos na transformação mineral.
Conhecimento
O diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário, afirmou que o desenvolvimento dessas cadeias não depende apenas da disponibilidade dos recursos. “O futuro é um binômio. É mineração mais conhecimento”, resumiu.
Cesário defendeu uma aproximação maior entre empresas e centros de pesquisa e condições de financiamento adequadas, especialmente para pequenas e médias companhias. Também apontou como obstáculo o prazo necessário para transformar uma descoberta em operação comercial: segundo ele, são, em média, 17,2 anos entre a identificação da reserva e o início do faturamento de um projeto mineral no Brasil.
O diretor-executivo da Agência para o Desenvolvimento e Inovação do Setor Mineral Brasileiro (Adimb), Roberto Xavier, avaliou que o país já desenvolveu competência na descoberta de depósitos, mas precisa avançar nas etapas seguintes. Para isso, considera necessário selecionar os minerais nos quais o Brasil possui condições reais de desenvolver cadeias competitivas, com escala e demanda.
“A mineração e as indústrias que utilizam os insumos minerais são dois mundos com realidades diferentes, mas que dependem entre si”, afirmou. Segundo Xavier, essa aproximação é necessária para que setores como mobilidade elétrica, energia e fabricação de motores possam se conectar melhor à oferta de matérias-primas minerais.
Mercado
Para Jorge Boeira, analista de Produtividade e Inovação da ABDI, a política nacional representa apenas um primeiro passo. O país também precisa ampliar sua capacidade de consumir produtos e componentes derivados desses minerais, criando demanda suficiente para sustentar economicamente novos projetos de refino e manufatura.
“A gente precisa criar indústrias que tenham capacidade para consumir esses componentes baseados em minerais e materiais de origem mineral e que isso crie um mercado doméstico importante para garantir economicidade de novas plantas de refino e manufatura desses materiais”, afirmou.