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Portugal

Brasil supre quase a metade do petróleo importado por Portugal: 44% de cada 10 barris

27 de July de 2026 às 13:35
Vicente Nunes Enviar e-mail para o Autor Público Brasil

Petróleo brasileiro faz com que Portugal não dependa do Oriente Médio nem da Rússia. Especialistas veem a parceria entre os dois países como estratégica, beneficiada por uma rota sem conflitos

O Brasil se consolidou como o maior fornecedor de petróleo para Portugal. De cada 10 barris importados pelo país europeu, 44% saem dos campos de produção brasileiros, segundo o Ministério da Energia português. Isso significa dizer que, em média, Portugal compra 90,7 mil barris de petróleo por dia do Brasil.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) apontam que, nos primeiros seis meses deste ano, o Brasil exportou 213 milhões de dólares (186 milhões de euros) em óleo bruto ou minerais betuminosos crus para Portugal, representando 3,4% de todas as vendas desses produtos do país para o mundo.

Já na rubrica óleos combustíveis de petróleo ou de minerais betuminosos (exceto óleo bruto), as compras de Portugal do Brasil somaram 42,2 milhões de dólares (37 milhões de euros), com aumento de 106% em relação ao primeiro semestre de 2025.

Segundo o economista Paulo Gala, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo, o Brasil se tornou estratégico para Portugal no fornecimento de petróleo em meio à guerra no Oriente Médio, uma vez que o produto transita pelo Atlântico, uma rota livre, ao contrário do Estreito de Ormuz, hoje alvo de uma disputa entre o Irã e os Estados Unidos e com muitos bloqueios.

Segurança no abastecimento

Para Luiz Piauhylino Filho, consultor em energias renováveis e advogado, Portugal tem no Brasil não um fornecedor qualquer, mas o seu principal parceiro de segurança de abastecimento, à frente de origens como a Argélia. Ele ressalta que vê essa parceria entre os dois países como “uma das relações energéticas mais subestimadas do Atlântico”.

“Num momento em que a Europa fez questão de se afastar do petróleo do Oriente Médio e da Rússia, o Brasil oferece a Portugal algo raro: um fornecedor estável, fora das zonas de tensão geopolítica, com petróleo de boa qualidade e produção em crescimento. É diversificação e é segurança, dois valores caros a quem depende quase inteiramente de energia importada”, frisa.

Há outro fator importante que reforça a relação entre Brasil e Portugal no campo energético: a presença da portuguesa Galp na Bacia de Santos, onde está a reserva do pré-sal brasileiro. Ali, o petróleo é extraído de águas ultraprofundas. A Galp já operava os campos de Tupi e Iracema e, em outubro do ano passado, passou a extrair óleo bruto do campo de Bacalhau, com capacidade para produzir até 220 mil barris por dia.

“Portanto, há uma lógica de integração natural entre produzir petróleo no Brasil e refiná-lo em Portugal — a Galp tem refinarias em Sines —, e o pré-sal reforça a atratividade do petróleo brasileiro para o mercado português”, assinala Piauhylino Filho.

Ele vai além e diz que o que mais lhe interessa nessa parceria é o que ela pode se tornar. “O mesmo eixo Brasil-Portugal que hoje move petróleo é o eixo natural para as moléculas do futuro: hidrogênio verde, e-metanol, amônia verde e etanol”.

E complementa: “À medida que o custo do carbono na Europa se firma, através do sistema de comércio de emissões e do CBAM (Mecanismo de Ajustamento Carbônio Fronteiriço), essa relação transatlântica tem tudo para se reinventar em torno da energia limpa. A dependência de petróleo é o presente. A oportunidade estratégica é transformar essa mesma ponte numa parceria de transição energética”.

Entre os líderes

Paulo Gala frisa que o Brasil, que se tornou um fornecedor estratégico, está muito próximo de se tornar o quinto maior produtor de petróleo do mundo — em média, são extraídos 4,3 milhões de barris por dia. E isso tem provocado impactos positivos para o país no que se refere ao comércio exterior e ao balanço de pagamentos.

O superávit na balança comercial brasileira atingiu 42,4 bilhões de dólares (3,7 mil milhões de euros) nos primeiros seis meses deste ano, mais que o triplo do observado no mesmo período de 2025 (12,2 bilhões de dólares ou 10,7 mil milhões de euros).

“O Brasil, curiosamente, está bem posicionado no atual cenário de guerra. O câmbio segue em torno de R$ 5,10, ou um pouco abaixo disso, e volta a valer aquela dinâmica de país exportador de petróleo que já vimos operar no primeiro semestre do ano, quando a balança comercial ficou exuberante justamente por conta do preço da commodity”, explica.

Há um porém: a inflação decorrente da alta dos preços dos combustíveis, que contamina toda a cadeia produtiva. Mas o governo brasileiro vem optando por manter os subsídios para o óleo diesel. Com isso, o economista-chefe da Bravonte Investimentos, Eduardo Velho, prevê que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechará este ano em 4,4%, quase no teto da meta, de 4,5%. “Ou seja, o Brasil acaba desempenhando bem num cenário mundial de inflação em alta e petróleo pressionado, próximo dos 95 dólares (83,3 euros) o barril”, complementa Paulo Gala.

Esta reportagem integra uma série de matérias do jornal Público, de sua editoria Público Brasil, publicado pela Rede BE News, a partir da parceria firmada entre os dois veículos. São reportagens destacando as novidades e os desafios dos imigrantes brasileiros em terras lusitanas ou, nas palavras da equipe do Público Brasil, “histórias e notícias para a comunidade brasileira que vive ou quer viver em Portugal”. A matéria original pode ser acessada por este link.

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TAGS BRASIL hidrogênio petróleo Portugal
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