Mineração
Brasil tem potencial para liderar produção global de lítio, dizem executivos
Empresas apontam qualidade dos projetos, custos competitivos e matriz energética limpa como diferenciais, mas cobram segurança jurídica e políticas para ampliar a cadeia de valor
O Brasil reúne vantagens competitivas para se consolidar como um dos principais produtores mundiais de lítio, mas precisa avançar em segurança jurídica, políticas públicas e agregação de valor para transformar sua vantagem geológica em liderança industrial. Essa foi a avaliação de executivos das principais empresas do setor durante a Conferência de CEOs do Lithium Business 2026, no último dia 8, em Salinas (MG). Além do potencial geológico brasileiro, os executivos destacaram a qualidade dos projetos, a matriz energética renovável, os baixos custos de produção e a crescente preocupação mundial com a segurança no fornecimento de minerais estratégicos para a transição energética. Federico Gay, principal analista da Benchmark Mineral Intelligence e moderador do painel, afirmou que a indústria do lítio vive uma nova fase após a volatilidade dos últimos anos.
“Vivemos um momento decisivo para a indústria global do lítio. Depois de um período de forte volatilidade, o setor passa a buscar equilíbrio entre oferta e demanda, competitividade, inovação e sustentabilidade. A questão central é como o Brasil pode transformar sua extraordinária vantagem geológica em liderança industrial”, afirmou.
Mercado prioriza qualidade e confiabilidade
Para o vice-presidente de Relações Internacionais e Desenvolvimento de Negócios da Sigma Lithium, Daniel Abdo, o mercado voltou a valorizar fundamentos sólidos dos projetos.
“O mercado voltou a focar no que realmente faz diferença: qualidade dos recursos, eficiência operacional, disciplina financeira e consistência na entrega dos produtos”, afirmou.
Segundo ele, a demanda estrutural continua sustentada pelo crescimento dos veículos elétricos, sistemas de armazenamento de energia e data centers, enquanto compradores passaram a exigir maior rastreabilidade e confiabilidade.
“Os grandes vencedores serão aqueles capazes de entregar competitividade, sustentabilidade e confiabilidade. O Brasil está muito bem posicionado para liderar esse movimento.”
O CEO da CBL, Vinícius Alvarenga, afirmou que o Brasil já ocupa uma das posições mais competitivas do mundo em custos de produção e tem potencial para ampliar significativamente sua participação no mercado internacional.
“O Brasil está entre os menores custos de produção do mundo. Os projetos que foram implantados são economicamente sustentáveis e vieram para ficar.”
Segundo ele, a produção nacional pode alcançar entre 1 milhão e 1,5 milhão de toneladas anuais de concentrado nos próximos cinco a dez anos.
Segurança jurídica
Embora reconheçam avanços da proposta que institui a Política Nacional de Minerais Críticos (PL 2.780), os executivos demonstraram preocupação com dispositivos que podem aumentar a insegurança para investidores.
A diretora de Assuntos Corporativos e Sustentabilidade da PLS Brasil, Marisa Cesar, afirmou que o projeto de lei em discussão no Congresso Nacional traz instrumentos importantes para estimular investimentos, mas alertou para pontos que ainda geram incertezas.
“O projeto tem aspectos muito positivos, mas alguns dispositivos podem aumentar a imprevisibilidade para os investidores. Segurança jurídica continua sendo um fator decisivo para a atração de capital.”
Segundo ela, a verticalização da cadeia depende não apenas de recursos naturais, mas também de competitividade econômica e desenvolvimento tecnológico.
“O Brasil já domina etapas importantes do processamento do concentrado de lítio, mas avançar para outras fases do refino exige políticas públicas capazes de tornar esses investimentos economicamente viáveis.”
Fabiano Costa, presidente da AMG Brasil, fez avaliação semelhante.
“Temos know-how, capacidade técnica, mão de obra, competitividade e interesse em agregar valor. O que ainda falta é demanda para justificar esses investimentos.”
Costa lembrou que a elevada capacidade ociosa existente na China dificulta a instalação de novas plantas de processamento em outros países.
“Hoje, competir com a capacidade instalada chinesa é um enorme desafio. Por isso, qualquer estratégia de verticalização precisa ser construída com muita responsabilidade.”
Cooperação e licença social
Outro ponto de consenso entre os participantes foi a necessidade de ampliar a cooperação entre as empresas instaladas no Vale do Jequitinhonha.
Para Vinícius Alvarenga, o crescimento conjunto fortalece toda a cadeia produtiva.
“Não interessa a ninguém o fracasso de outro projeto. Quanto mais empresas produzirem, maior será nossa capacidade de atrair fornecedores, reduzir custos e desenvolver a economia regional.”
Marisa Cesar destacou que o sucesso dos projetos depende da construção de confiança junto às comunidades.
“A licença social é estratégica. Nosso trabalho vai além da mineração; envolve desenvolvimento socioeconômico, diálogo permanente e construção de confiança com as comunidades.”