Mineração
Brazil Iron cita US$ 30 bi em contratos e vê mercado para ferro verde
Empresa afirma ter comprometido dez anos de produção futura com compradores da Ásia e da Europa e aposta na descarbonização da siderurgia para impulsionar demanda
A mineradora anglo-brasileira Brazil Iron afirma já ter garantido compradores para os primeiros dez anos de produção do projeto de ferro verde que pretende desenvolver na Bahia. Segundo a companhia, dois contratos de offtake assinados com clientes da Ásia e da Europa somam cerca de US$ 30 bilhões e representam um indicativo de que começa a surgir um mercado específico para insumos voltados à descarbonização da siderurgia.
A empresa ainda não produz no país, mas planeja investir US$ 5,7 bilhões (quase R$ 30 bilhões) em uma operação integrada que reunirá mineração, beneficiamento, produção de pelotas e fabricação de HBI (Hot Briquetted Iron), ou ferro briquetado a quente. O produto é considerado uma das alternativas para reduzir as emissões da indústria do aço, tradicionalmente dependente do carvão mineral.
“Já temos, na verdade, dois contratos de offtake muito amarrados, que correspondem a dez anos de produção desse produto de ferro verde. Isso nos dá uma cifra de mais ou menos US$ 30 bilhões em contratos de offtake”, afirmou o vice-presidente de Relações Institucionais da companhia, Emerson Souza, em entrevista ao programa Mapa da Mina, da CNN Brasil.
Contratos de offtake são acordos de compra futura firmados antes do início da produção. No setor mineral, costumam desempenhar papel importante na estruturação financeira de grandes empreendimentos, uma vez que ajudam a demonstrar demanda, reduzem incertezas e podem facilitar negociações com bancos, investidores e potenciais parceiros.
A aposta da Brazil Iron é que a combinação entre políticas climáticas, exigências regulatórias e metas corporativas de redução de emissões criará uma demanda crescente por produtos intermediários capazes de reduzir a pegada de carbono da siderurgia. Nesse contexto, o HBI ocuparia um espaço distinto daquele tradicionalmente atendido pelo minério de ferro exportado como commodity.
“Se a gente pensar no mercado global do minério de ferro, esse produto não vai se posicionar no mesmo patamar que o minério de ferro tradicional. Não vamos ter a substituição do minério de ferro original 100%. O que vai acontecer é a ampliação da participação do ferro verde na fabricação do aço por algumas questões”, afirmou Souza.
Segundo o executivo, a empresa não vê o ferro verde como substituto do minério tradicional, mas como um produto voltado a uma parcela específica do mercado siderúrgico, formada por empresas pressionadas a reduzir emissões ou sujeitas a exigências regulatórias mais rígidas.
Um dos principais exemplos citados pela companhia é o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM), criado pela União Europeia para atribuir custos às emissões incorporadas em produtos importados, incluindo ferro e aço. Na avaliação da empresa, iniciativas desse tipo tendem a aumentar o interesse por matérias-primas e insumos de menor intensidade de carbono.
Souza também apontou o Japão como exemplo de país que vem utilizando instrumentos públicos para financiar a descarbonização da indústria pesada. Segundo ele, o governo japonês tem apoiado investimentos em novas rotas siderúrgicas, incluindo fornos elétricos e processos menos dependentes do carvão mineral.
Embora a perspectiva de crescimento desse mercado seja apontada como uma das principais oportunidades para o setor, a chamada premiação verde continua sendo uma das principais incógnitas da indústria. A expectativa é que produtos de menor emissão possam obter preços superiores aos das rotas convencionais, mas ainda existe debate sobre até que ponto consumidores e siderúrgicas estarão dispostos a absorver esses custos adicionais.
Grandes grupos siderúrgicos europeus têm reconhecido a necessidade de reduzir emissões, mas também alertado para as dificuldades econômicas da transição. Por isso, a viabilidade comercial do ferro verde em larga escala ainda depende de uma combinação de fatores que inclui regulação climática, mecanismos de financiamento, certificação de emissões e compradores dispostos a celebrar contratos de longo prazo.
Para a Brazil Iron, os acordos já firmados representam um sinal de que esse mercado começa a se consolidar.
“Tem siderúrgica e indústria final. Nossos compradores estão basicamente localizados na Ásia e na Europa. Esses são os mercados mais interessados nesse produto”, afirmou Souza.