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Cargill desiste de investir R$ 1,2 bi em projeto de cacau no Pará, diz jornalista

Atualizado em: 3 de March de 2026 às 10:17
Da Redação Enviar e-mail para o Autor

Segundo Elio Gaspari, decisão ocorreu após invasão de terminal em Santarém e impasse envolvendo o Decreto 12.600, depois revogado pelo governo federal

A multinacional Cargill teria desistido de investir cerca de US$ 250 milhões — o equivalente a aproximadamente R$ 1,2 bilhão — em um projeto de cultivo de cacau no oeste do Pará e decidido transferir a iniciativa para o Equador. A informação foi publicada pelo jornalista Elio Gaspari em artigo nos jornais O Globo e Folha de S.Paulo.

De acordo com o colunista, a decisão da empresa ocorreu após uma sequência de episódios envolvendo bloqueios e a invasão do terminal da companhia em Santarém, no oeste paraense, em meio a protestos contra o Decreto 12.600, editado pelo governo federal em agosto de 2023.

O decreto incluiu trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Plano Nacional de Desestatização (PND), autorizando a realização de estudos para eventual concessão à iniciativa privada de serviços como dragagem, derrocagem e manutenção de hidrovias. A medida foi apresentada pelo governo como parte de uma estratégia para ampliar a infraestrutura logística na Região Norte e reduzir custos de transporte.

A inclusão dos rios no PND provocou reação de povos indígenas, organizações socioambientais e movimentos sociais, que passaram a organizar manifestações na região de Santarém. Os críticos da medida alegaram risco de impactos ambientais e classificaram a iniciativa como uma tentativa de “privatização” dos cursos d’água. Entre os pontos mais questionados estava a previsão de dispensa de licenciamento ambiental para a realização dos estudos técnicos, o que, segundo opositores, poderia fragilizar a análise de impactos.

No artigo, Gaspari menciona que a dragagem do leito do Rio Tapajós poderia revolver sedimentos possivelmente contaminados por mercúrio, resíduo associado a atividades de garimpo ilegal registradas na região ao longo das últimas décadas. A possibilidade de contaminação ampliou a mobilização contrária ao decreto.

Os protestos ganharam intensidade no início de 2024, com bloqueios no acesso ao terminal da Cargill em Santarém, uma das principais estruturas privadas de escoamento de grãos na região. Em fevereiro, uma decisão do Tribunal Regional Federal determinou a desobstrução dos acessos, mas as manifestações continuaram. O terminal da empresa é utilizado principalmente para o embarque de soja e milho produzidos no Centro-Oeste, que seguem pela hidrovia do Tapajós até portos de exportação, integrando o corredor logístico conhecido como Arco Norte.

Na madrugada de 21 de fevereiro, manifestantes invadiram as instalações do terminal. Segundo o relato publicado por Gaspari, 42 funcionários permaneceram abrigados em salas trancadas por cerca de três horas até a normalização da situação. Dois dias após o episódio, o governo federal anunciou a revogação do decreto. A revogação foi formalizada por meio de novo ato publicado no Diário Oficial da União, retirando os trechos dos rios do Plano Nacional de Desestatização e suspendendo os estudos que estavam previstos.

Ainda conforme o artigo, apesar da revogação da norma, a Cargill teria optado por redirecionar o investimento previsto para o Equador, citando a exposição a um cenário de insegurança jurídica evidenciado pelos acontecimentos em Santarém. O texto afirma que a avaliação interna da companhia considerou que o ambiente institucional no Brasil, naquele contexto, representava risco adicional ao projeto.

Investimento

O investimento planejado previa financiamento para o plantio de cacau, inclusive em áreas de pastagens degradadas no oeste do Pará, com potencial de recuperação ambiental e geração de empregos locais. A proposta incluía apoio técnico a produtores rurais, fornecimento de mudas e assistência para inserção na cadeia internacional de comercialização da amêndoa, matéria-prima utilizada na indústria de chocolates e derivados.

A Cargill atua em dezenas de países e está entre as maiores comercializadoras globais de grãos e commodities agrícolas. No Brasil, a empresa opera terminais portuários, armazéns e unidades de processamento. Em 2021, o terminal da empresa em Santarém foi responsável pela exportação de aproximadamente 6 milhões de toneladas de produtos, consolidando o município como um dos principais pontos de escoamento da produção do Centro-Oeste pelo chamado Arco Norte.

Até o fechamento desta edição, não houve posicionamento público oficial da empresa detalhando os motivos da eventual transferência do projeto ou confirmando formalmente a decisão mencionada no artigo.

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