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Confira a entrevista com Thiago Miller, especialista em Direito Marítimo

Atualizado em: 23 de January de 2026 às 14:45
Ivani Cardoso Enviar e-mail para o Autor

Foto: Arquivo Pessoal

Thiago Miller até pensou em fazer Jornalismo, mas o chamado do Direito foi mais forte e ele se encontrou na faculdade, embora também tenha feito Economia depois. Afinal, o pai, o advogado Ruy de Mello Miller, era sócio majoritário de um grande escritório especializado em Direito Marítimo e Portuário, fundado em 1961, e foi lá que começou a trabalhar como office-boy. 

Hoje Thiago reconhece que deu muita sorte na vida profissional: “Eu comecei junto com a Lei dos Portos, de 20 de fevereiro de 1993, que revolucionou o setor trazendo a semente de muitas transformações e demandas para a atividade do Direito Marítimo e Portuário.”

Quando estava no quarto ano da faculdade, o pai passou por um problema sério de saúde. “Eu assumi com meus dois irmãos, com o apoio dos sócios de meu pai, Barja e Vania. Ele ainda voltou com menos responsabilidades e ficou com a gente por sete anos. Saiu definitivamente em 2002 e faleceu em dezembro de 2003, eu estava com 28 anos.”

O escritório foi crescendo com novos clientes, empresas portuárias e novos advogados para atender às demandas crescentes. “Fazíamos o direito empresarial (marítimo, comercial e tributário) e passamos a atuar com licitações, agências reguladoras, pegamos todo esse crescimento do setor. Fomos, inclusive, convidados pelo deputado Márcio França para representar o Porto de Santos em Brasília nas discussões para a criação da Secretaria Especial de Portos, para explicar ao então Ministro da SEP, Pedro Brito, os desafios do setor.

Animado com a pujança do setor e com a economia dando provas de estabilidade, Thiago e os irmãos resolveram mudar o escritório para um novo prédio com salas amplas e uma bela vista panorâmica para o porto. Quinze dias depois a pandemia obrigou todos a fecharem as portas. “Foi um momento muito difícil. Tínhamos acabado de mudar e no dia 16 de março todo mundo pegou o laptop e levou para casa. Eu não acreditava no que estava acontecendo. Acho que até hoje não temos noção de todas as consequências da pandemia.”

Superada a fase, o escritório voltou a todo vapor: “Nós tínhamos a vantagem da experiência, fomos pioneiros na área. Sempre investimentos muito nas pessoas para ter um ambiente acolhedor para clientes e colaboradores”, conta.

Para ele, o maior desafio é a degradação institucional que afeta as pessoas, os negócios, o país: “Toda hora há denúncias. Acho que quando vamos envelhecemos ficamos desanimados com toda essa insegurança, inclusive jurídica. Vejo escritórios copiando nossas petições, isso é um absurdo. Seguimos sem saber o que vamos encontrar pela frente, o ser humano se adapta às mudanças; o brasileiro, mais ainda. O Brasil é um mercado consumidor pujante, tem riquezas naturais, é preciso ter esperança. O Brasil poderia ser um foguete, mas não conseguimos crescer como deveríamos.”

Foi justamente a esperança que abriu o caminho para ampliar a base para o Arco Norte, em expansão: “Em 2024 abrimos uma filial em Belém, tendo como sócia uma advogada que veio da área do transporte hidroviário. O Estado do Para tem sérios problemas, mas apesar das carências continua crescendo na infraestrutura.”

Como muitos especialistas têm apontado outros portos que estão levando cargas que eram de Santos, Thiago acredita que, mesmo assim, não vai afetar o nosso complexo. “Temos algumas dificuldades em Santos que atrapalham como a questão dos gargalos, mas é preciso pensar seriamente. Se o acesso viário e marítimo continuar como está, vamos travar. Temos a vantagem de estar ao lado da locomotiva que é o Estado de São Paulo; nenhum outro porto tem três terminais de contêineres como o nosso, e logo teremos o quarto.”

Ele ainda vê com certa desconfiança o famoso acesso túnel Santos-Guarujá: “O Porto de Santos precisa de um túnel? Precisa, mas não é prioridade. Temos, além dos acessos, o desafio de ampliar o calado. Vejo o túnel como uma obra eleitoreira e o dinheiro do nosso porto que será usado não voltará para cá.”

Como patrocinador do Fórum Brasil Export e conselheiro do Norte Export, ele se entusiasma com as atividades, encontros, missões internacionais: “Conhecemos vários portos, nesses encontros é possível fazer contatos com pessoas de todas as regiões do Brasil.”

Casado com Kelly, eles estão vivendo a fase de preparar os filhos para a vida: “Nós falamos para eles que o importante é que escolham com calma e que sejam felizes. Só exigimos que eles estudem fora de Santos. Sair de casa traz mais amadurecimento, experiência, novos olhares para o mundo.”

Thiago gosta muito do mar e sempre que pode vai nadar ou navegar. “Eu e Kelly nos divertimos com filmes e séries. De vez em quando vou para a cozinha, mas só faço risoto e outros pratos mais fáceis, o básico mesmo.”

Além de ter herdado as feições do pai, agradece o legado que ele deixou: “Nós brincávamos que ele era três em um, fazia o que depois os três filhos tentavam fazer. Ele deu liberdade, nos ensinou muito. Quando precisamos, tínhamos as ferramentas para continuar o seu trabalho.”

 

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