Norte Export
Economia azul ainda carece de pesquisa e ações para desenvolvimento estratégico
Infraestrutura portuária, especialmente no litoral, ainda é muito pobre na região, o que impacta grande parte da produção pesqueira
Transformar estudos em ações práticas voltadas a desenvolver soluções para a economia azul foi o ponto central do painel que fechou a programação do Inova Export, que integrou a programação do primeiro dia do Norte Export 2025, em Belém (PA). O debate reuniu especialistas e girou em torno da inovação e sustentabilidade no uso de recursos da Amazônia.
A diretora da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação do Instituto Federal do Pará, Caroline Souza, destacou o trabalho para desenvolver tecnologias sociais, produzidas para e pelas comunidades costeiras. Caroline ressaltou a importância dessas comunidades para o avanço no crescimento econômico e na conservação, e de colocar os estudos da área na prática.
“A gente tem tentado implantar a cultura da inovação, que às vezes, dentro das instituições acadêmicas, não é tão forte. As pessoas produzem conhecimento, mas ele não é traduzido em tecnologias que são levadas para essas empresas. Estamos trabalhando com acordos de pesquisa, termos de incubação, etc., pra aliar todo esse cenário dentro da economia azul”, afirmou a diretora.
Na avaliação do professor do Instituto Federal do Pará (IFPA) Campus Belém, Roberto Vilhena, a infraestrutura portuária, especialmente no litoral, ainda é muito pobre na região, o que impacta grande parte da produção pesqueira. “A maior parte da nossa produção pesqueira é artesanal, e ela não tem uma estrutura adequada, que dê qualidade no produto pesqueiro que consumimos”, afirmou.
Essa carência afeta o desenvolvimento do turismo, segundo Vilhena. O professor frisou que a região não tem boa tradição em aproveitar o turismo de forma adequada, e a atividade pesqueira teria um papel importante para o crescimento desse setor e da economia do Norte de maneira geral. “O desenvolvimento econômico para a pesca seria essencial pra gente alcançar novos mercados, até mesmo explorar novos recursos”, pontuou Vilhena.
Ele ainda levantou a necessidade de investir em pesquisas na área. De acordo com o professor, o último estatístico sobre pesca, com dados detalhados sobre captura de pesca artesanal e industrial oficial do país é de 2007. A falta de informações dificulta a realização de novas ações para a pesca. “Pegando a série de dados de 2007, dez espécies representavam quase 90% do que era produzido no litoral estuarino e marinho do Pará. Dessas dez espécies, sete estavam com tendência de declínio de produção. A gente não tem um quadro bom nesse sentido e não sabemos, de lá pra cá, qual o estado da produção. Precisamos de dados, isso é necessário pra gente pensar na economia como um todo”, afirmou.
O secretário de Indústria, Comércio e Tecnologia de Barcarena, Marco Aurélio Prata Mendes, falou sobre a necessidade de promover a integração de diferentes ações para alcançar resultados concretos em diferentes setores. Ele citou o sistema de climatologia utilizado pela Hidrovias do Brasil, que prevê chuvas para que as embarcações tenham as portas fechadas e evitem a perda de cargas como a soja.
“Imagina essa tecnologia agregada. Se eu cruzo com os dados do Censipam (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia), da Universidade Federal do Pará e da Saúde do Município de Barcarena, eu consigo aplicar esses dados que já estão ali, que servem unicamente pra falar da qualidade do grão e fechar uma porta, pra trabalhar uma previsibilidade de acordo com o clima de doenças, por exemplo”, salientou o secretário.
Os recursos hídricos da região foram destacados pelo presidente do Sindicato do Operadores Portuários do Maranhão (Sindomar), Daniel Pereira, como um ponto crucial para a transição energética no país e a geração de emprego e renda nesse segmento. Ele explicou que, tanto Pará, quanto Maranhão, estão num ambiente de macromaré, o que é de grande valor nas ações para desenvolver geração de energia com recursos naturais.
“A energia cinética gerada a partir da variação entre as marés altas e baixas dão uma oportunidade muito grande. Uma oportunidade seria entender o tipo de profissional que precisa ser formado pra atender essa demanda pela atualização da matriz energética e investir no desenvolvimento de soluções e profissionais que estão alinhados a isso”, afirmou Pereira.