Agronegócio
Economista vê pressão sobre fretes e inflação com escalada da Guerra
Em seminário do café, Pablo Spyer afirma que valorização do petróleo e instabilidade geopolítica já afetam energia, cadeias produtivas e comércio global
A escalada das tensões no Oriente Médio, os efeitos da alta do petróleo sobre a inflação global e os reflexos desse cenário nos fretes, nos custos de produção e no crescimento econômico estiveram no centro da palestra do economista Pablo Spyer durante o XXV Seminário Internacional do Café, realizado nesta terça-feira (20), em Santos. Ao analisar o cenário internacional, o analista afirmou que a combinação entre conflitos geopolíticos, encarecimento da energia e desaceleração econômica já produz impactos sobre cadeias produtivas em diferentes partes do mundo, incluindo o Brasil.
“O principal tema no mundo hoje é a guerra no Oriente Médio, que fez o preço do petróleo disparar com força. Estava em 70 dólares e, em cerca de dois meses, foi a 110 dólares, uma alta de 50% que tem muitos efeitos colaterais, sendo o principal a alta dos combustíveis, que interfere no frete”, afirmou.
Segundo Spyer, o Estreito de Ormuz concentra não apenas o transporte de petróleo, mas também de gás natural, fertilizantes e insumos utilizados pela agricultura brasileira, como amônia, fosfato e potássio.
“Os preços dos fretes subiram demais. Há toda uma mudança nas estruturas do comércio global, com preço de energia subindo, inflação subindo, puxando o PIB para baixo”, declarou.
O economista afirmou que, caso os conflitos se prolonguem por mais de três meses, a inflação global poderá subir 2,8%, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) mundial pode registrar retração de até 3,15%. Segundo ele, a cada 10% de valorização do barril de petróleo, o impacto sobre o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no Brasil pode chegar a 0,4 ponto percentual.
Spyer também traçou um panorama para a economia internacional, apontando desaceleração em mercados emergentes e na Zona do Euro, além de dificuldades enfrentadas pela China, que, segundo ele, projeta crescimento abaixo de 5% e voltou a ampliar o uso de usinas a carvão.
Por outro lado, o economista destacou que os Estados Unidos continuam sustentados pelo consumo interno e avaliou que o dólar atravessa um momento de enfraquecimento.
Para o Brasil, Spyer projetou crescimento de 2% do PIB neste ano, inflação em torno de 5,3%, dólar a R$ 5 no fim de 2026 e taxa Selic em 13,75%.
Mesmo assim, afirmou manter visão positiva sobre o cenário doméstico. “A demanda está muito forte, e estamos em pleno emprego. Também vieram o início do corte de juros e a reforma tributária, que vai melhorar nossa visão no mundo”, disse.
Sobre o mercado cafeeiro, o economista avaliou que o setor atravessa um momento favorável. “Devemos bater recordes (de safra). O consumo segue aumentando sem parar e quero ver quando a China tiver um boom… o café vai brilhar de novo”, afirmou.