HUB
Impasse no governo ameaça dragagem do Tapajós e encarece escoamento de grãos
Lula tende a não autorizar a obra emergencial após pressão de lideranças indígenas, enquanto setor produtivo alerta para risco de interrupção da hidrovia durante a seca provocada pelo El Niño
A realização da dragagem emergencial do rio Tapajós (PA), um dos principais corredores hidroviários para o escoamento da produção agrícola do Centro-Oeste, enfrenta um impasse. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tende a não autorizar a obra, indo contra a avaliação de sua equipe técnica e expondo a hidrovia ao risco de paralisação pela seca do El Niño. Ele manifestou sua posição na tarde de ontem, dia 23, em reunião no Palácio do Planalto com lideranças de comunidades indígenas da região – elas ameaçarem organizar protestos, algo que o chefe do Executivo quer evitar em pleno ano eleitoral, se os trabalhos ocorrerem. O setor produtivo ainda buscam uma negociação, a fim de viabilizar a intervenção.
A reunião no Palácio do Planalto foi presidida pela ministra-chefe da Casa Civil, Miriam Belchior, e contou com representantes do Ministério dos Transportes, do Ministério de Portos e Aeroportos, do Ministério de Minas e Energia e do DNIT, responsável pela obra.
Segundo fontes do Governo, a dragagem chegou a ter seu escopo reduzido, a fim de evitar polêmicas ambientais e garantir sua realização. O projeto inicial do DNIT previa a retirada de cerca de 3 milhões de metros cúbicos de sedimentos durante três anos. Mas a obra emergencial foi planejada para remover 1 milhão de metros cúbicos, concentrando-se em um trecho de quatro quilômetros, entre Miritituba e Santarém, e levando de 90 a 100 dias. Com esse novo dimensionamento, nenhuma comunidade indígena seria afetada em raio inferior a dez quilômetros.
Caso a dragagem emergencial não seja realizada, o Tapajós terá sua navegabilidade reduzida, diante da seca que será provocada pelo El Niño entre este e o próximo ano. Isso afetará, apenas nos próximos meses, o escoamento de 3,5 milhões a 5,5 milhões de toneladas de grãos — principalmente soja e milho produzidos no norte de Mato Grosso. Em 2027, o impacto tende a ser maior. Para o setor agrícola, a alternativa será armazenar a colheita a custo mais elevado ou redirecionar os embarques para os portos de Santos (SP) ou Itaqui (MA), o que tende a elevar os custos em R$ 500 milhões. Nesse caso, haverá ainda um maior impacto ambiental, com o transporte sendo feito por caminhões ou trens.