Indústria
Indústria perde ritmo em abril e acumula queda no ano, aponta CNI
Mesmo com avanço de 0,5% no faturamento mensal, horas trabalhadas, emprego e uso da capacidade instalada recuam
A indústria de transformação brasileira voltou a apresentar sinais de perda de fôlego em abril. Embora o faturamento real tenha registrado crescimento de 0,5% na comparação com março, o ritmo desacelerou significativamente em relação aos meses anteriores e veio acompanhado de queda na atividade produtiva, redução do emprego e aumento da ociosidade nas fábricas.
Os dados constam nos Indicadores Industriais divulgados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).
O avanço do faturamento representa o quarto resultado positivo consecutivo do indicador, mas em intensidade bem menor do que a observada no primeiro trimestre. Em fevereiro e março, as altas haviam sido de 3,7% e 3,9%, respectivamente. Na comparação com abril de 2025, houve crescimento de 3,4%. Ainda assim, no acumulado dos quatro primeiros meses do ano, o faturamento da indústria ficou 2,5% abaixo do registrado no mesmo período do ano passado.
Segundo avaliação da própria CNI, o desempenho recente não indica uma retomada consistente da atividade industrial, mas reflete principalmente um movimento de normalização após a forte retração registrada no fim de 2025.
A desaceleração aparece de forma mais evidente no ritmo da produção. O número de horas trabalhadas recuou 1,3% em abril frente a março, interrompendo três meses seguidos de crescimento. Na comparação com abril de 2025, a queda foi de 0,7% e, no acumulado do primeiro quadrimestre, o indicador registra retração de 1,5%.
Outro sinal de menor dinamismo veio da utilização da capacidade instalada (UCI), que passou de 77,5% para 77,1% entre março e abril, recuo de 0,4 ponto percentual. Em relação ao mesmo mês do ano anterior, a queda foi ainda mais intensa, de 2,2 pontos percentuais. Na média dos quatro primeiros meses do ano, o uso do parque industrial caiu 1,5%, indicando aumento da capacidade ociosa diante da demanda mais fraca por bens industriais.
Para a especialista em Políticas e Indústria da CNI, Larissa Nocko, o cenário é resultado da combinação entre restrições financeiras e perda de força do mercado interno.
“Os principais fatores por trás da perda de dinamismo da indústria de transformação são o patamar elevado das taxas de juros e suas consequências, como o encarecimento do custo do crédito e o aumento do endividamento das famílias e das empresas, reduzindo o espaço para o crescimento do consumo. A isso, soma-se a demanda interna enfraquecida e a forte entrada de produtos importados, que segue capturando boa parte do mercado consumidor doméstico”, afirma.
O mercado de trabalho industrial também perdeu força. O emprego caiu 0,2% em abril, acumulando retração de 0,8% no primeiro quadrimestre e registrando resultado negativo em seis dos últimos oito meses. Na comparação com abril do ano passado, a queda foi de 1,1%.
Apesar disso, os indicadores de renda seguiram em direção oposta.
O rendimento médio real pago aos trabalhadores industriais cresceu 5,3% entre março e abril, revertendo três meses consecutivos de queda. Na comparação com abril de 2025 e também no acumulado do ano, o avanço foi de 1,3%. A massa salarial acompanhou o movimento e avançou 5% no mês, acumulando alta de 0,5% no primeiro quadrimestre.
Para Larissa Nocko, a combinação entre desaceleração industrial e aumento da remuneração está relacionada ao cenário mais amplo do mercado de trabalho brasileiro.
“Embora a pesquisa mostre queda do emprego industrial pela sexta vez nos últimos oito meses, é importante destacar que o mercado de trabalho, como um todo, continua bastante aquecido. Além disso, a taxa de desemprego registra mínimas históricas. Então, existe pouco espaço para o crescimento da ocupação e essa configuração acaba levando ao aumento dos salários”, explica.
O resultado de abril reforça um cenário de crescimento mais moderado para a indústria em 2026, com recuperação desigual entre os indicadores e maior pressão sobre competitividade, demanda e custos de produção.