Mercosul Export
Inovações e sustentabilidade transformam gestão portuária
Baixo investimento em infraestrutura e Custo Brasil ainda geram perdas de R$ 4,3 bilhões por ano
Gilmara Temóteo, diretora-executiva da Associação Brasileira de Entidades Portuárias e Hidroviárias (ABEPH), apresentou o panorama das inovações em gestão nos portos e hidrovias do Brasil durante o Fórum Mercosul Export, realizado nesta sexta-feira (18), em Assunção. Representando os portos públicos brasileiros, responsáveis por 95% do comércio exterior do país, a executiva defendeu que inovação e transformação digital são hoje imperativos estratégicos para o setor.
Em 2024, os portos brasileiros movimentaram 1,32 bilhão de toneladas, volume que representa cerca de 26% do PIB nacional, de acordo com a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ). “Mais do que números expressivos, o setor portuário é apontado como uma infraestrutura estratégica que conecta regiões, gera empregos e impulsiona o crescimento econômico do país”, citou.
Mesmo com avanços, o setor ainda enfrenta gargalos importantes, como o chamado Custo Brasil, que gera perdas de R$ 4,3 bilhões por ano. A baixa integração entre os modais logísticos, a complexidade tributária e a insegurança jurídica continuam dificultando a competitividade. O investimento público em infraestrutura representa apenas 0,34% do PIB, índice muito inferior à média global.
Implantações
Nesse cenário, a transformação digital vem ganhando força com a adoção de tecnologias como PCS (Port Community System), inteligência artificial, Internet das Coisas e o gêmeo digital — uma réplica virtual e dinâmica das operações portuárias. O Porto de Santos já investiu R$ 60 milhões na modelagem virtual de canais e berços, enquanto o sistema PMIS, implantado em Suape, reduziu em 50% o tempo médio das operações.
“O porto 4.0 não se resume à tecnologia. Ele exige pessoas 4.0: capacitadas, conectadas e protagonistas das mudanças que já estão em curso”, afirmou Gilmara.
A digitalização tem impulsionado a busca por profissionais com domínio técnico em automação e análise de dados. Estimativas do SENAI indicam que o Brasil precisará qualificar 14 milhões de trabalhadores até 2027, grande parte deles no setor logístico.
A crescente digitalização também trouxe novos desafios, como a segurança cibernética. Em 2024, o Porto de São Francisco do Sul foi alvo de um ataque hacker que comprometeu mais de 880 mil documentos. Como resposta, portos como o de Itaqui, no Maranhão, e Paranaguá, no Paraná, vêm adotando sistemas avançados de monitoramento, centros de controle com câmeras inteligentes e programas robustos de governança tecnológica.
A pauta ESG também foi tratada como um eixo essencial da nova gestão portuária. A eletrificação de berços já é realidade em portos como Santos e Salvador, enquanto o Porto do Açu lidera ações voltadas à transição energética. “A agenda ESG deixou de ser tendência. Ela se tornou uma exigência de mercado e de governança”, destacou.
No campo das hidrovias, o Brasil possui mais de 20 mil km economicamente viáveis, mas menos da metade está em uso. Entre as iniciativas em andamento, estão as obras de recuperação da hidrovia Tietê-Paraná e a concessão de 1.075 km do Rio Madeira, com foco na navegação noturna. O governo federal prevê R$ 4,5 bilhões em investimentos no setor por meio do Novo PAC e criou um núcleo técnico para ampliar a intermodalidade.
“A inovação na gestão portuária já é realidade, mas precisa ser intensificada”, disse, apontando que a combinação entre tecnologia, qualificação de pessoas, governança e sustentabilidade é o caminho para transformar os portos brasileiros em centros logísticos modernos, eficientes e conectados com o futuro.