Portos
Interdição de terminal em Salvador ameaça safra
Operação do Itapuã está suspensa por investigação de contaminação ambiental atribuída a passivo da ex-operadora Gerdau; mais de uma dezena de navios aguarda na Baía de Todos os Santos e o prejuízo por embarcação já alcança R$ 2 milhões
A interdição do Terminal Itapuã, em Salvador, imposta pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) para investigação de contaminação na faixa costeira do subúrbio ferroviário, provoca um efeito cascata sobre o abastecimento agrícola do Nordeste e do Centro-Oeste. Mais de uma dezena de navios carregados de fertilizantes permanece ancorada na Baía de Todos os Santos sem previsão de descarga, e cada dia de espera representa um custo estimado de R$ 100 mil por embarcação, prejuízo que recairá sobre as importadoras e, em última instância, sobre o produtor rural.
O terminal é a principal porta de entrada de insumos agrícolas para a Bahia e o Tocantins: responde por 70% dos fertilizantes consumidos pelos dois estados e serve como plataforma logística para o Matopiba, corredor agrícola que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e concentra parte relevante da expansão da fronteira agrícola brasileira. A paralisação, portanto, não é apenas um problema ambiental localizado. É um gargalo com potencial de comprometer janelas de plantio e reduzir a produtividade da próxima safra de grãos.
Empresas do setor já contabilizam os danos. A Big Fértil, a Fertimáxi e a OCP, distribuidoras de fertilizantes com atuação no Nordeste, externaram preocupação formal com o impacto sobre custos e entregas. O Sindicato da Indústria de Adubos e Corretivos Agrícolas do Nordeste, com sede em Pernambuco, também alertou para o risco de desabastecimento regional. Com navios aguardando até 20 dias na fila, o sobrecusto acumulado pode ultrapassar R$ 2 milhões por embarcação, valor que pressiona a competitividade do fertilizante no mercado interno e pode inviabilizar contratos.
A contaminação identificada na região envolve concentrações elevadas de cobre, compostos nitrogenados e outros metais pesados em sedimentos, água intersticial e organismos marinhos, segundo laudos divulgados pelo Inema após inspeções realizadas em abril e maio. O órgão encontrou ainda estoque remanescente de ureia no terminal durante a vistoria de maio e determinou sua retirada. A área com restrição de banho, pesca e contato com sedimentos permanece ampliada.
O ponto central do impasse é a origem do passivo. Os primeiros laudos técnicos, incluindo declarações do próprio diretor-geral do Inema, Topázio Neto, indicam que o cobre e os demais metais pesados identificados são preexistentes à atual operação — e remontam ao período em que a Gerdau controlava o terminal, antes de vendê-lo à Intermarítima em 2022. O cobre, especificamente, não faz parte dos produtos atualmente operados no Itapuã, o que fragiliza a tese de que a operação corrente seja a causadora direta da contaminação.
Liberação do terminal
Em entrevista ao BE News, o deputado estadual Eduardo Salles (PV), que acompanha o caso como presidente da Comissão de Infraestrutura da Assembleia Legislativa da Bahia, defendeu que as duas questões sejam tratadas em paralelo: a responsabilização da Gerdau e a retomada das atividades do terminal, desde que os órgãos técnicos confirmem que a operação atual não agrava o dano ambiental. “O material já foi comprovado como originário da Gerdau. Ela precisa ser penalizada e iniciar imediatamente a contenção necessária”, afirmou Salles, acrescentando que “quem precisa dizer se o funcionamento do terminal interfere ou não no problema ambiental são os técnicos”.
A posição do parlamentar reflete a tensão central do caso: de um lado, a necessidade de investigar e remediar um passivo ambiental real, com impactos documentados sobre a biodiversidade costeira; de outro, o risco de que a paralisação prolongada de uma infraestrutura logística estratégica transfira o ônus do problema histórico para produtores rurais, importadores e consumidores que nada têm a ver com a contaminação. A manutenção da interdição, sem distinção entre o passivo histórico e a operação atual, pode também provocar o desvio permanente de cargas para outros portos, com perda de receitas logísticas e fiscais para a Bahia.
Em nota, a Gerdau informou que o terminal marítimo foi vendido em 2022 para o Grupo Intermarítima, sendo a licença ambiental do ativo devidamente transferida para o novo proprietário. A companhia diz refutar tese e acusações de que há conclusões de que as manchas atuais configuram passivo histórico, “pois nenhuma análise técnica foi conclusiva quanto às reais causas”.
“Mesmo com o Ministério Público tendo constatado que a poluição pelos agentes químicos continua ocorrendo, demonstrando a responsabilidade exclusiva da atual operadora pela atual contaminação, a Gerdau, por liberalidade e sem assunção de qualquer responsabilidade, se colocou à disposição para contribuir com um percentual do auxílio à comunidade e dos custos com as investigações”, encerra a nota.
O Inema informou que as empresas envolvidas foram notificadas para apresentar medidas emergenciais de recuperação ambiental e que a decisão sobre eventual retomada das atividades dependerá de avaliação técnica.