Portos
Matheus Oliva defende autonomia portuária e foco nos corredores
Novo colunista do BE News propõe gestão estadual ou municipal das Docas e maior atuação federal nos acessos logísticos
O Brasil precisa mudar a forma como planeja e administra sua infraestrutura portuária para transformar os avanços obtidos nos terminais em ganhos efetivos de competitividade logística. Essa é uma das principais avaliações de Matheus Oliva, executivo especializado nos setores portuário e de Energia e novo colunista do BE News, que defende transferir a gestão das Docas federais para estados e municípios e concentrar recursos da União nos acessos e corredores de carga.
Para Oliva, a participação privada ampliou a eficiência dos terminais brasileiros nas últimas décadas, mas o próximo salto depende de levar essa evolução ao restante da cadeia logística. “A ampliação da participação privada, impulsionada pelas leis de 1993 e 2013, fez o porto passar a disputar carga e a tratar quem paga a conta como cliente. Cliente escolhe, compara e cobra resultado. Essa mudança de cultura trouxe investimento, tecnologia e produtividade”, afirma.
Segundo os dados citados pelo executivo, os portos brasileiros movimentaram 1,4 bilhão de toneladas em 2025, alta de 6,1%. O desafio agora é estender a eficiência dos terminais aos demais elos do transporte. “No fim, é o cliente quem paga pela ineficiência”, resume.
Autonomia para as Docas
Entre as prioridades para os próximos cinco anos, Oliva coloca no topo da lista a transferência da gestão das Docas federais para estados ou municípios, com autonomia e responsabilidade sobre os resultados.
A segunda frente seria concentrar recursos técnicos e financeiros da União nos acessos e corredores de carga. Na avaliação do executivo, depois de duas décadas de investimentos e modernização dos terminais, os maiores ganhos de eficiência estão cada vez mais fora das instalações portuárias.
Oliva cita como exemplos o aprofundamento do Porto de Santos para 17 metros e a conexão da Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico) com a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) e a saída portuária. “Ferrovia sem porto integrado não resolve. Nos próximos cinco anos, o foco é conectar interior, cidade e porto”, afirma.
Outra prioridade é modernizar as relações de trabalho para incorporar automação e novas qualificações, ampliando a produtividade e a segurança.
Corredor isolado
O desequilíbrio da matriz brasileira de transporte de cargas também está entre as preocupações do executivo. Segundo números da FGV citados por Oliva, o modal rodoviário responde por 58% da matriz, enquanto a ferrovia representa 23,5%.
Para ele, a dependência das rodovias aumenta o custo do transporte de grandes volumes em longas distâncias. “Abandonar a ferrovia foi um erro estratégico; corrigi-lo exige malha estruturante, não corredores isolados”, defende.
Oliva ressalta que o caminhão continuará essencial para coleta e distribuição, mas defende uma rede ferroviária capaz de assumir percursos de longa distância e alimentar os portos. A expansão ferroviária, acrescenta, também deve ser vista como política industrial, ao movimentar cadeias de aço, vagões, locomotivas e serviços de engenharia. “Um porto eficiente não compensa uma carga que já chega cara”, diz.
Infraestrutura estratégica
A mesma lógica vale para os acessos aquaviários. Na avaliação de Oliva, o aprofundamento dos canais é uma responsabilidade estratégica do Estado, embora isso não signifique que o Tesouro deva financiar todas as intervenções.
Uma alternativa, segundo ele, é conceder acessos aquaviários onde exista escala econômica suficiente para sustentar o serviço. O modelo poderia combinar tarifa regulada, profundidade contratada e manutenção permanente. Em Santos, Oliva considera que o avanço para 17 metros faz sentido desde que seja acompanhado por berços e condições operacionais compatíveis.
Oliva também relaciona a infraestrutura portuária à transição energética e prevê uma combinação de combustíveis alternativos para a navegação, definida por custo, disponibilidade e emissões.
Rosa dos Ventos
É a partir dessa visão que Oliva pretende conduzir sua nova coluna no BE News, “Rosa dos Ventos”. A proposta será observar não apenas os números de movimentação de cargas, mas também os movimentos de capital que antecipam transformações na infraestrutura.
“Quero mostrar de onde vem o capital, para onde vai e por quê. Uma aquisição de terminal ou a escolha de uma base offshore revela movimentos que a estatística de carga só registra depois”, afirma.
Oliva cita o plano de investimentos da Petrobras, de US$ 109 bilhões entre 2026 e 2030, como exemplo das oportunidades na interface entre energia, portos e navegação, mas ressalta que anúncio, investimento e operação são etapas diferentes. “A Rosa dos Ventos oferece orientação para quem decide”, conclui.