Portos
Mulheres avançam na infraestrutura e conquistam espaço histórico na estiva
No Dia Internacional da Mulher, histórias de novas estivadoras refletem a ampliação da presença feminina em um dos setores mais tradicionais e masculinos da economia
Durante décadas, os portos foram territórios quase exclusivamente masculinos. Entre contêineres, guindastes e navios de grande porte, a estiva sempre carregou a imagem de um trabalho duro e reservado aos homens. Mas esse cenário começa a mudar. No Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, a presença feminina no setor de infraestrutura, especialmente nas operações portuárias, surge como símbolo de transformação e conquista de espaço.
Dados recentes mostram que o avanço ainda é gradual. Levantamento publicado no ano passado pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) aponta que as mulheres representam cerca de 17,8% dos trabalhadores no setor portuário brasileiro, presença que historicamente se concentrou em áreas administrativas, técnicas ou de gestão. Nos últimos anos, porém, elas começaram a chegar também às operações de cais, incluindo a estiva, atividade responsável pelo carregamento e descarregamento de navios.
A mudança está ligada à modernização da infraestrutura portuária. Com a mecanização e a automação das operações, a exigência de esforço físico diminuiu e abriu caminho para uma maior diversidade de profissionais no setor.
Mesmo assim, a presença feminina na estiva ainda é recente. Em alguns portos brasileiros, as primeiras mulheres começaram a atuar nessa função apenas nos últimos anos. No Porto de Paranaguá, por exemplo, as primeiras estivadoras foram registradas após mais de um século de operações. Já no Porto de Santos, o maior da América Latina, novas profissionais passaram a integrar cursos e programas de formação ligados ao trabalho portuário.

“Agora é aquilo que é novo, que a gente vai entrar, mas vai entrar ao mesmo tempo com medo, com um friozinho na barriga, mas sabendo que a gente vai conquistar alguma coisa”, diz Silvia Carla Soares dos Santos. Foto: Júnior Batista
Para quem acaba de ingressar na atividade, o momento mistura emoção, expectativa e coragem diante do novo. A estivadora Silvia Carla Soares dos Santos é uma das três mulheres que tomaram posse do cargo em Santos.
O Órgão de Gestão da Mão de Obra do Trabalho Portuário do Porto Organizado de Santos (Ogmo-Santos) realizou a diplomação de 47 novos trabalhadores portuários avulsos em janeiro.
“Agora é aquilo que é novo, que a gente vai entrar, mas vai entrar ao mesmo tempo com medo, com um friozinho na barriga, mas sabendo que a gente vai conquistar alguma coisa. É uma porta que se abriu”, afirma Silvia.
A ligação com o universo portuário, em muitos casos, vem da própria família. Silvia conta que o incentivo veio de perto.
“Eu venho de uma família estivadora. Meu marido, meus primos e meu cunhado sempre me incentivaram a fazer parte da família da estiva. Quando a porta se abriu, eu falei: ‘eu vou’”, relata.
Antes professora, ela encara agora uma mudança de profissão, sem abandonar a vocação de ensinar.
“O professor nunca deixa de ser professor. A gente sempre está aqui para aprender e ensinar. Isso aqui também é um aprendizado que vai ser levado para outras pessoas”, diz.
Para Silvia, a presença feminina no setor ainda pode avançar muito. “A mulher pode ir muito mais além. Quem sabe um dia ser presidente do sindicato ou do órgão. A mulher pode estar em todos os lugares”, reforça.
Dedicação e renúncias

“A sensação é muito boa. É a sensação de conquista, de que valeu todo o esforço. A gente abre mão de muita coisa, inclusive de tempo com a família, para estar aqui hoje”, conta Sabrina Maneleira Silva. Foto: Júnior Batista
Entre as novas profissionais, o sentimento de conquista é compartilhado. A estivadora Sabrina Maneleira Silva destaca que o caminho até a formação exigiu dedicação e renúncias.
“A sensação é muito boa. É a sensação de conquista, de que valeu todo o esforço. A gente abre mão de muita coisa, inclusive de tempo com a família, para estar aqui hoje”, conta.
Ela acredita que a chegada de mais mulheres fortalece o setor e ajuda a inspirar novas gerações.
“É para mostrar que somos capazes. A gente está chegando para acrescentar, não para tomar o lugar de ninguém. É mais força, mais gente trabalhando junto”, diz.
A troca de apoio entre mulheres também tem sido fundamental nesse processo. “Quem já passou incentiva quem ainda está tentando. É uma inspiração para outras gerações que estão vindo”, afirma Sabrina.

“Eu ensino isso para minha filha: a mulher pode estar onde ela quiser. Com respeito, ética e buscando o espaço dela, a gente pode chegar onde quiser”, afirma outra nova estivadora, Aline de Jesus Barbosa. Foto: Júnior Batista
Outra nova estivadora, Aline de Jesus Barbosa, destaca que a decisão de seguir na profissão também foi influenciada pela história familiar no porto.
“Meu irmão me incentivou a estar aqui. Meu pai trabalhava na área portuária e eu tenho certeza de que estaria muito orgulhoso”, diz.
Para ela, o desafio de entrar em um ambiente historicamente masculino também carrega uma mensagem importante. “Eu ensino isso para minha filha: a mulher pode estar onde ela quiser. Com respeito, ética e buscando o espaço dela, a gente pode chegar onde quiser”, conclui.