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“Não estamos aqui para competir”

Desde criança, Flávia Sammarco foi uma criança briguenta pelo que era certo e o que era justo, defendia os amiguinhos e, se precisasse, ia para o embate. Foi crescendo e mesmo sendo a mais nova dos irmãos era ela que resolvia os problemas.
Cursar Direito apareceu naturalmente como opção, mas por pouco não mudou de posição: “Eu vim de uma família simples, sou filha de estivador e comecei a trabalhar na Rádio Cultura com 14 anos, começando como telefonista e passando por várias funções. Gil Mansur foi meu grande mentor e aprendi muito com ele. Queria que eu fizesse Jornalismo e até ofereceu uma bolsa de estudos para que eu continuasse trabalhando na emissora, mas eu sempre fui teimosa e sabia exatamente o que queria: ser advogada”.
Depois da decisão tomada Mansur apoiou e sempre esteve ao seu lado incentivando e ajudando no que era necessário. Na faculdade conheceu o Direito Marítimo pelas aulas de Osvaldo Sammarco, que viria ser seu sogro, pai do Marcelo.
Embora estivessem em salas diferentes, Flávia e Marcelo se aproximaram por meio do Diretório Acadêmico Ariosto Guimarães inicialmente, em lados opostos. Flávia era candidata à presidência e poderia se tornar a primeira mulher a ocupar o cargo, enquanto Marcelo apoiava a chapa adversária, encabeçada por Paulo Alexandre Barbosa. Os dois tiveram alguns embates durante a campanha, mas, após um problema de saúde de sua mãe, Flávia precisou se afastar e acabou compondo com a chapa adversária como vice-presidente. Foi nesse período de maior convivência no DA que as divergências deram lugar à proximidade, e Flávia e Marcelo começaram a namorar.
Inicialmente Flávia começou a trabalhar com Direito de Família, com o advogado Luiz Carlos Peres, mas foi percebendo que Direito Marítimo era o que desejava. “Ele me ensinou muito, mas brincava que eu não levava jeito porque era muito conciliadora e que eles acabavam perdendo clientes. “Eu gostava de conversar, perguntava para os casais se tinham certeza da separação e fazia mediação.”
Algum tempo depois, Flávia foi convidada pelo sogro para trabalhar no escritório da família, onde está até hoje, agora mais envolvida na parte de gestão de pessoas e no setor financeiro. O escritório cresceu e hoje funciona com uma equipe de advogados e funcionários entre Direito Marítimo e Direito Trabalhista, que somam 42 colaboradores, sendo mais de 80% mulheres.
Como ela e Marcelo vieram de famílias grandes, pensavam em ter dois ou três filhos, mas vieram cinco filhas, com duas gestações gemelares. “Com as duas mais novas eu fiquei grávida com 40 anos, não esperávamos. Eu e Marcelo somos muito unidos com nossos irmãos e eu acho importante ter esse aprendizado de dividir, é o primeiro desafio de criança. É como se nós, pais, deixássemos um presente, irmãos companheiros para o resto da vida.”
O desejo se realizou. Beatriz, Giovana, Lorena, Maitê e Livia se adoram e são muito parceiras, mesmo com o espaço de cinco anos. Beatriz, 21 anos, está fazendo Direito em São Paulo e as irmãs (9 e 14 anos) ficam contando os dias esperando sua chegada toda sexta-feira com ansiedade. “E quando ela chega é uma loucura, se juntam no quarto da mais velha e ficam conversando, assistindo séries, um grude só”, comenta Flávia.
Na vida profissional, uma grande mudança aconteceu quando recebeu o convite para integrar a Secretaria de Assistência Social. Foram dez anos de uma experiência que transformou seu olhar para a vida e para as pessoas. “Ganhei uma bagagem muito rica, vivi de perto mazelas que muitas vezes achamos distantes, mas que estão ao nosso lado e não enxergamos. Eu me doei muito e, quando saí, senti essa ruptura de não estar mais servindo à comunidade e contribuindo para melhorar a vida das pessoas. Hoje posso dizer que conheço Santos de ponta a ponta e suas diferentes realidades.”
Como todas as mulheres, conseguir equilibrar a vida pessoal com trabalho não é fácil. Quando Beatriz a nasceu, ela até tentou parar um tempo, mas não foi bom: “Sentia muita falta e depois não parei mais nas outras gestações, claro que com horário mais flexível e com um bom apoio em casa.
Atuar no Direito Marítimo também foi uma experiência importante: “Estar em um porto de referência como Santos faz toda a diferença. Você conhece de perto os trâmites, a realidade local e a importância da regulação para o setor. É uma área bastante técnica, que envolve procedimentos complexos e exige atenção constante às normas e às particularidades de cada processo.”
Flávia é muito ligada à família e os programas são sempre comuns. Ela conta que Marcelo é um ótimo pai e parceiro. Procura encontrar tempo para atividade física e para a leitura. Agora, por exemplo, está lendo e gostando muito de “Bom Dia, Inverno”, de Tamara Klink. Não dispensa as caminhadas na praia, adora estar perto do mar.
O grande sonho está realizando há três anos, com a criação do Instituto Sammarco. “Meu sogro diz que é importante deixar um legado para devolver para a sociedade o que recebemos. Marcelo me incentivou muito. Lançamos o projeto Navegando com elas para dar voz às mulheres. Trouxemos mulheres incríveis para falar e, no primeiro encontro, vieram a Mariana Pescatori e a Flávia Takafashi, que abraçaram a ideia, foi um sucesso. Os eventos são transmitidos em tempo real pelo BE News com mais de mil pessoas assistindo.”
Combater a violência contra a mulher é prioridade: “É uma dor que eu não vivo, mas eu sinto a dor dessas mulheres. É preciso falar sobre equiparação de gênero, de salário, são tantas causas. Temos legislação, mas não vemos acontecer na prática. É fácil falar na posição em que estou, mas sinto que posso contribuir com outras mulheres. Eu tenho cinco filhas e tenho que vestir essa bandeira. Não estamos aqui para competir, temos que construir aliados nesse caminho e todas as iniciativas são boas. Mudando o olhar no ambiente de trabalho vamos mudar em casa também.”