Portugal
Número de brasileiros expulsos dos EUA quase dobrou em 2025
No total, foram deportados 3.278 brasileiros indocumentados do território americano contra 1.640 de 2024. Foram necessários 38 voos para retirar esse contingente de brasileiros dos Estados Unidos
A política anti-imigração dos Estados Unidos atingiu em cheio os brasileiros que vivem naquele país. Dados consolidados pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) apontam que, em 2025, 3.278 cidadãos foram deportados para o Brasil, quase o dobro do observado no ano anterior (1.640). Foram necessários 38 voos para retirar todo esse contingente do território americano. Foi como se, a cada dia útil do ano, os EUA expulsassem, em média, 13 brasileiros.
Oito em cada 10 brasileiros deportados dos Estados Unidos eram da região Sudeste, que engloba São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Os voos que decolaram das cidades americanas tiveram três destinos — os aeroportos de Confins, em Minas Gerais (53,83%); Fortaleza, no Ceará (35,90%); e Manaus, no Amazonas (8,27%). No Brasil, o governo providenciou a distribuição desses cidadãos para suas cidades de origem. Dos 38 voos, 35 foram fretados pela ICE, a polícia imigratória dos EUA.
O ministério, porém, foi obrigado a negociar diretamente com o governo americano a forma como transportar os brasileiros expulsos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva exigiu que os cidadãos não entrassem em território do Brasil algemados. O acordo com os americanos foi feito depois que vídeos mostrando brasileiros com as mãos e os pés algemados desembarcando em Manaus ganharam as redes sociais. Brasília considerou aquele tratamento desumano, uma afronta aos direitos humanos.
Vitória de Trump
Segundo o Relatório Consular Anual, preparado pelo Ministério das Relações Exteriores, o governo brasileiro passou a acompanhar de perto das mudanças nas políticas migratórias dos EUA desde 2024, no contexto da eleição presidencial que resultou na vitória de Donald Trump. “A área consular passou a acompanhar de forma mais sistemática a evolução do tema e a intensificar o diálogo com as autoridades dos Estados Unidos, preparando-se para eventual aumento das medidas de controle migratório”, diz o documento.
Por determinação de Brasília, foram adotadas medidas de reorganização da rede consular nos EUA e de reforço da cooperação bilateral, com vistas a assegurar adequada assistência aos brasileiros e mitigar os impactos do retorno compulsório. “Em janeiro de 2025, foi estabelecido um grupo de trabalho entre o Itamaraty e a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, para coordenação dos voos de deportação”, acrescenta o ministério no relatório.
Esse canal, conforme o ministério, “permitiu aperfeiçoar procedimentos relacionados ao embarque, ao acompanhamento dos voos e ao desembarque em território brasileiro, bem como tratar de forma cooperativa questões relativas às condições enfrentadas pelos nacionais durante o processo de deportação”.
Diante da maior previsibilidade dos voos, o ministério conseguiu estabelecer resposta federal integrada para a recepção e o acolhimento dos brasileiros retornados, sob a coordenação do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, com a participação da Polícia Federal, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, do Ministério da Saúde, além do Itamaraty e de outros órgãos federais e estaduais.
“Essa atuação evoluiu para o programa Aqui é Brasil, operacionalizado com apoio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e da Organização Internacional para as Migrações (OIM). A iniciativa oferece acolhimento imediato, orientações iniciais e encaminhamentos voltados à reintegração social dos retornados”, assinala o ministério, lembrando que, como resultado das negociações, a operação passou por nova adaptação logística, com o uso de aviões maiores e a definição do Aeroporto de Confins, em Minas, como principal ponto de entrada no país.
Centros de detenção
Na avaliação do Ministério das Relações Exteriores, a rede consular brasileira nos Estados Unidos desempenhou papel central em todas as etapas do processo, com destaque para os consulados-gerais em jurisdições mais afetadas, que realizaram visitas a centros de detenção, acompanharam os voos e prestaram informações aos brasileiros antes do retorno ao Brasil.
Também foi importante, segundo o ministério, “a atuação da Embaixada do Brasil em Washington, que manteve diálogo permanente com o Departamento de Estado e o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, contribuindo para o aprimoramento contínuo da operação”.
Esta reportagem integra uma série de matérias do jornal Público, de sua editoria Público Brasil, publicado pela Rede BE News, a partir da parceria firmada entre os dois veículos. São reportagens destacando as novidades e os desafios dos imigrantes brasileiros em terras lusitanas ou, nas palavras da equipe do Público Brasil, “histórias e notícias para a comunidade brasileira que vive ou quer viver em Portugal”. A matéria original pode ser acessada por este link.