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Jornal BE News - Edição de Hoje

Porto de Santos

Porto Diverso reúne setor portuário para debater inclusão além das cotas

19 de May de 2026 às 16:24
Mariana Nerome Enviar e-mail para o Autor

Na manhã desta terça-feira (19), o Terminal Concais recebeu gestores, empresas e sociedade civil para a 3ª edição do evento

Em 1991, uma garota de 18 anos voltava de viagem para Santos quando o carro capotou na interligação da Anchieta com a Imigrantes. Ela quebrou o pescoço e se tornou tetraplégica. O que veio depois do acidente, Flávia Cintra descreve não como o fim de um futuro, mas como o início de um olhar — o olhar que as pessoas passaram a ter sobre ela, e que até hoje precisa enfrentar.

Três décadas depois, essa mesma menina virou repórter do Fantástico, da TV Globo, palestrante e uma das vozes mais reconhecidas na pauta de direitos das pessoas com deficiência no Brasil. Foi ela quem fechou, na manhã desta terça-feira (19), a programação da 3ª Edição do Porto Diverso, no terminal de cruzeiros Concais, em Santos — evento que, desde 2024, reúne o setor portuário para debater diversidade, equidade e inclusão.

Desta vez, o tema central foi a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Empresas, gestores públicos e representantes da sociedade civil ocuparam o auditório do Concais desde as 8h15 para um dia que passou por painéis, reconhecimento de signatários de uma carta de compromisso DEI e apresentação cultural, e terminou com Flávia no centro do palco, falando sobre o que é viver com deficiência numa sociedade que ainda não sabe muito bem como olhar para isso.

OLHAR

“Pra muita gente eu sou coitadinha ou exemplo de superação. E pra você?” A pergunta, feita por um vídeo, divulgado durante a conversa, foi o ponto de partida da palestra. Flávia disse que naquele momento, logo após o acidente, o mais difícil não foi a lesão, foi perceber que, do dia para a noite, as pessoas passaram a enxergá-la de outro jeito. Uma garota que todos esperavam muito, de repente resumida ao passado e à tristeza de um futuro que, na visão dos outros, não ia mais acontecer.

Sem internet, sem informação circulando com a velocidade de hoje, ela foi encontrar, aqui em Santos, pessoas que também não queriam se encaixar na ideia de “coitadinha”. Um deles foi Luciano Marques que ela citou como alguém que a ensinou muito naquela época. Desse grupo saiu o embrião de uma atuação que, anos depois, a levou a representar o Brasil nas discussões da ONU para a elaboração da Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência.

Foi lá, no início dos anos 2000, que nasceu o grito que ela trouxe para o Concais: “Nada sobre nós sem nós.” Uma frase entoada em todos os idiomas oficiais da ONU durante a construção do conteúdo da Convenção. Para Flávia, ela não é só um manifesto de presença, é também um alívio para gestores públicos e privados que precisam criar ambientes inclusivos e não sabem por onde começar.

“Toda vez que você tiver uma dúvida diante de uma situação que envolve a minha presença, me coloca no jogo, me chama para a mesa. A gente sempre surpreende com soluções simples. Na grande maioria das vezes, não precisa contratar um engenheiro da NASA”, explicou Flávia.

O ponto central da fala foi o conceito que embasou a própria Convenção da ONU: a deficiência não é uma doença, nem uma característica isolada da pessoa. Ela existe na relação entre o indivíduo e as barreiras que a sociedade impõe.

Quanto mais barreiras, maior o impacto da deficiência na vida de alguém. Quanto menos barreiras, menor. “Aqui hoje, por exemplo, eu quase não enfrentei nenhuma. Tinha acessibilidade na entrada, um bom lugar para estacionar, não tinha degraus. O acesso foi quase perfeito por conta da remoção das barreiras pensada para esse evento”, disse.

Esse raciocínio levou à explicação de um ciclo histórico: a falta de acessibilidade manteve as pessoas com deficiência dentro de casa. Sem sair, elas não eram vistas. Sem serem vistas, não tinham como reivindicar. Sem reivindicar, as demandas não eram priorizadas. Sem prioridade, nada mudava. E o ciclo se fechava. “Hoje, finalmente, a gente rompeu esse ciclo”, afirmou. Mas fez questão de marcar que o preconceito não desapareceu — ele mudou de forma.

ALÉM DAS COTAS

Antes da palestra magna, o painel “Para Além das Cotas” reuniu representantes do setor público, da academia e do terceiro setor para discutir práticas de inclusão no mercado de trabalho. A coordenadora de Pessoa com Deficiência da Prefeitura de Santos, Cristiane Zamari, foi além do cargo e se apresentou também como mãe atípica e mulher neurodivergente diagnosticada tardiamente com TDAH.

Cristiane apresentou iniciativas da prefeitura de Santos, entre elas o programa Santos Acessível, que certifica empresas acessíveis para contratação e atendimento de pessoas com deficiência, a carteira municipal de identificação da pessoa com deficiência e a entrega de abafadores de ruído para pessoas com hipersensibilidade auditiva — recurso que ela mesma usa, além do Polo de Empregabilidade Inclusivo, que cruza o perfil de candidatos com oportunidades nas empresas, com foco especial em pessoas neurodivergentes.

Valdinei Santos, presidente da Comissão Permanente de Acessibilidade da Prefeitura de Guarujá, apresentou um projeto em desenvolvimento no município que busca não só encaminhar pessoas com deficiência ao mercado de trabalho, mas também capacitá-las, uma lacuna que o terceiro setor sozinho não conseguia preencher por falta de recursos.

Wagner Tedesco, coordenador de psicologia da UniSantos, apresentou o Programa de Desenvolvimento para Inclusão Profissional de Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo, estruturado há dois anos na universidade. O programa é gratuito para participantes e famílias, utiliza os mais de 100 laboratórios da instituição — de gastronomia a fotografia, de comunicação a TI — e atua junto às empresas não só para levantar vagas, mas para estudar ambientes e possibilidades de adaptação. O consultor em diversidade Douglas Alves também compôs o painel.

EVENTO

O evento incluiu ainda apresentação cultural do Lar das Moças Cegas, reconhecimento às empresas signatárias da Carta de Compromisso em Diversidade, Equidade e Inclusão do Porto de Santos e adesão de novos signatários. Os participantes foram convidados a contribuir com um quilo de alimento não perecível para a APAE Santos.

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TAGS PORTO DE SANTOS Porto Diverso
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