Nordeste Export
Portos podem gerar mais um mercado com nova regra da IMO
Complexos podem aproveitar a oportunidade para eletrificarem berços e venderem o fornecimento de energia aos navios, diz especialista
A Organização Marítima Internacional (IMO), responsável pelas normas internacionais para a navegação, estabeleceu em abril deste ano uma nova regra global para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) dos navios. A norma, chamada IMO Net-Zero Framework, visa zerar as emissões das embarcações de todo o mundo até 2050, começando a valer de forma escalonada a partir de 2028.
É a primeira vez que uma regra combina limites obrigatórios de emissões com precificação no setor de navegação. As metas variam entre menos 4% a partir de 2028 e vão até menos 40%, 50% até 2040. E caso as empresas não consigam diminuir as emissões das embarcações em até 4%, até 2028, terão de pagar UU$ 380 dólares por tonelada de carbono emitida.
As informações foram detalhadas por Luane Lemos, gerente de Meio Ambiente do Porto do Itaqui e coordenadora da Aliança Brasileira para Descarbonização de Portos, durante sua participação no InfraESG, painel que discutiu a temática durante o Fórum Nordeste Export, realizado nesta quinta-feira, em Tocantins (PI).
Segundo ela, os inventários das operações realizadas no Itaqui em 2022 mostraram que, ao fim do referido ano, em média 900 navios atracaram no complexo e emitiram, juntos, 76 mil toneladas de carbono. Se a regra da IMO já estivesse valendo, com base para 2028, isso significaria pouco mais de 1 milhão de dólares pagos ao órgão por descumprimento da meta. “Aqui existe um grande mercado, porque se o porto eletrificar e oferecer energia à embarcação, ele pode cobrar por isso. Em vez de pagar 380 dólares para a IMO, me pague 100. O porto gera um mercado e consegue verba, inclusive, para investir na ampliação desta infraestrutura”, avaliou Luane.
Para Luane, a descarbonização não tem só o viés ambiental: ela é também um “grande” nicho de mercado. Citou em seguida que se 30% da frota mundial de navios for descarbonizada entre 5 e 10 anos, essas embarcações precisarão encontrar portos que ofereçam os novos combustíveis, o que pode ser uma grande oportunidade para o setor energético do país e para os portos, especialmente os da região Nordeste, devido ao potencial de energia renovável da região.
“Nós estamos falando de uma demanda energética que está sendo gerada no Nordeste e que não tem para onde escoar. Eis aqui o nosso cliente (armadores). Se nós aumentamos a oferta de energia e os portos se eletrificam, a nossa demanda será gigante. Nós podemos, enquanto portos, cobrar taxas por esse abastecimento, o que se reverte em benefícios para os portos. Precisamos conectar demanda e oferta num sistema lógico”, analisou.
Ainda segundo ela, o Brasil precisa enxergar este mercado para atrair investimentos no setor de energia e captar, o quanto antes, essa demanda que já se avizinha – inclusive, relacionada à exportação. “O porto inteiro de Valência, na Espanha, consome hoje 16 megawatts e, para cada OPS que instalar, será mais 16 megawatts, ou seja, cada uma delas dobra a demanda energética do porto e essa demanda por energia é um gargalo”, conclui.
O OPS citado é o Onshore Power Supply – em português, estação de fornecimento de energia aos navios.
OBRIGATÓRIO
A coordenadora da Aliança Brasileira para Descarbonização de Portos ressaltou também que, na União Europeia, todos os portos que operam cruzeiros, contêineres e roll-on/roll-off (RoRo), já precisam eletrificar seus cais até 2030.
Ela mostrou um ranking onde o Porto de Roterdã aparece em primeiro lugar nessa corrida, ao se comprometer com a instalação de 56 Onshore Power Supply. Até o momento, porém, apenas quatro foram instaladas, restando cinco anos para a implementação das outras 52.
Além de Luane Lemos, o painel contou com as presenças de Rebeca Oliveira, Vice-Presidente Financeira do Complexo do Pecém; Joaquim Milhomem, Gerente de Relacionamento com o Cliente no Grupo Equatorial Energia; e Roger Jacob, Diretor Regional do SENAI Piauí. A moderação foi feita por Felipe Queiroz, Diretor da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).