Portos
Apreensões em portos caem após tráfico migrar para embarcações menores
Queda em portos brasileiros contrasta com aumento das apreensões em barcos pesqueiros e utilização de rotas com menos fiscalização
As apreensões de drogas em contêineres nos portos brasileiros vêm registrando queda significativa nos últimos anos, segundo dados mais recentes da Receita e da Polícia Federal (PF). Considerando todos os terminais do país nos últimos seis anos, o volume apreendido caiu de 66,7 toneladas em 2019 para 15,6 toneladas em 2025, queda de 76,6%.
No recorte do Porto de Santos (SP), o maior da América Latina e principal corredor de exportação do país, nos últimos cinco anos, a queda nas apreensões foi de 83%, porém, este cenário não é linear porque há variações no período, ou seja, não há queda contínua. Apesar disso, o volume permanece abaixo dos níveis registrados em anos anteriores, o que acompanha a tendência geral de redução observada no país.
No entanto, a redução nas apreensões em contêineres, não indica necessariamente diminuição do tráfico, já que, segundo a PF, o cenário reflete uma mudança de estratégia do crime organizado, que passou a utilizar outros modais marítimos para o transporte de drogas.
As investigações apontam aumento nas apreensões em embarcações menores, como barcos pesqueiros, veleiros, semissubmersíveis e navios de pequeno porte, com rotas voltadas principalmente para a Europa e a África.
Para investigadores, a mudança de rota está relacionada ao reforço nos mecanismos de controle nos portos nacionais. Entre as medidas adotadas estão a ampliação do uso de scanners — que já alcançam 100% das cargas de exportação em grandes terminais —, o aumento da vigilância por câmeras e o maior rigor no controle de acesso às áreas portuárias, iniciativas coordenadas por órgãos como a Comissão Nacional de Segurança Pública nos Portos (Conportos) e as Comissões Estaduais (Cesportos).
Outro fator apontado é o aumento do envio de cocaína em contêineres a partir de países como Colômbia, Equador e Peru diretamente para a Europa, reduzindo a utilização dos portos brasileiros como ponto de saída.
Ampliação do monitoramento
Agora, a Polícia Federal está ampliando o monitoramento dos novos modais utilizados pelo tráfico, com atenção especial às embarcações de menor porte, que vêm ganhando protagonismo nas rotas internacionais do crime organizado.
Em um dos casos mais recentes, em dezembro do ano passado, a PF prendeu dez integrantes de uma organização criminosa e apreendeu mais de 7 toneladas de cocaína em uma operação que saía de Itajaí (SC) rumo a destinos internacionais. A ação revelou a estrutura de uma rota marítima que utilizava barcos pesqueiros, lanchas rápidas e até semissubmersíveis para o envio de drogas à Europa.
As investigações, conduzidas pela Coordenação de Repressão a Drogas e Facções Criminosas da PF, apontaram que embarcações adquiridas no setor pesqueiro de Santa Catarina eram adaptadas para longas travessias e grande capacidade de carga ilícita. O esquema incluía o uso de lanchas rápidas para transbordo em alto-mar, tanto na costa do Suriname quanto no Nordeste brasileiro, antes da travessia rumo ao Atlântico.
As rotas eram planejadas para evitar áreas de maior vigilância e explorar regiões com baixa cobertura de comunicação, dificultando o rastreamento. Em alguns trechos, a logística contava ainda com o apoio de veleiros.
A fase final ocorreu com apoio internacional: a partir de informações compartilhadas pela PF, a Marinha Portuguesa interceptou dois pesqueiros em águas internacionais, resultando na apreensão da droga.
Para autoridades, a infiltração do crime organizado no setor pesqueiro de Itajaí (SC) expõe um problema que vai além da atividade ilegal: o aproveitamento de fragilidades socioeconômicas da região. Trabalhadores em situação financeira precária ou com baixa inserção no mercado formal acabam se tornando alvos do recrutamento para ceder as embarcações ou fazer parte das tripulações envolvidas no transporte de drogas.