Internacional
Prisão de Maduro pode levar Brasil a desvantagem em setor petrolífero
O país sul-americano concentra cerca de 303 bilhões de barris de petróleo em reservas, segundo estimativas internacionais
O mundo acompanhou, durante o fim de semana, a prisão do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, durante uma operação conduzida pelos Estados Unidos em Caracas. A detenção do líder venezuelano abriu uma série de incertezas sobre os impactos econômicos no setor petrolífero global, já que a Venezuela detém a maior reserva de petróleo do mundo.
A prisão de Maduro altera o equilíbrio geopolítico que envolve a indústria internacional de energia. O país sul-americano concentra cerca de 303 bilhões de barris de petróleo em reservas, segundo estimativas internacionais. No entanto, grande parte desse volume é composta por petróleo extrapesado, que exige tecnologia avançada e investimentos elevados para extração. Como resultado, a produção venezuelana despencou de cerca de 3 milhões de barris por dia na década de 1970 para aproximadamente 600 mil barris atualmente. Com a mudança de cenário político, a exploração dessa riqueza pode passar a ser administrada por interesses norte-americanos.
Após a prisão, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o petróleo venezuelano vinha sendo mal administrado e sinalizou a possibilidade de investimentos de empresas americanas no setor. Ao longo desta segunda-feira (5), o preço do barril registrou alta nas bolsas norte-americanas, refletindo a instabilidade e as expectativas do mercado.
Para o professor de Relações Internacionais da Unifesp, José Alexandre Altahyde Hage, a estratégia pode envolver o uso da estatal petrolífera venezuelana como uma espécie de reserva para grandes companhias dos Estados Unidos. “Pode-se levar em conta o uso da petrolífera da Venezuela como reserva para grandes petroleiras americanas. Com isso, há expectativa de investimento americano na reconstrução da infraestrutura do país”, avalia.

Situação da Venezuela após prisão de Maduro gera incertezas no cenário econômico global, principalmente a respeito do petróleo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
O governo brasileiro condenou a prisão, afirmando que a ação viola o direito internacional. No último sábado (3), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reuniu com ministros para discutir o caso. Os Estados Unidos, por sua vez, consideram Maduro um ditador ilegítimo desde que ele declarou vitória nas eleições de 2018. O líder venezuelano é acusado pela promotoria americana de narcoterrorismo, sob a alegação de comandar uma conspiração ligada a cartéis de drogas para envio de entorpecentes ao território norte-americano.
Com efeitos políticos ainda incertos na América Latina, a intervenção americana na Venezuela pode colocar o Brasil em uma posição de desvantagem na disputa por investimentos no setor de petróleo. Segundo Altahyde Hage, o capital disponível no mercado internacional é limitado. “O Brasil pode sofrer porque, se a Venezuela se tornar mais atrativa, há a possibilidade de o governo Trump e empresas americanas terem menos interesse em investir na infraestrutura brasileira, sobretudo nos setores de energia e mineração”, afirma.
O professor avalia ainda que a China, principal compradora do petróleo venezuelano, tende a adotar uma postura pragmática diante do novo cenário. Ele ressalta que o Brasil enfrenta fragilidades estruturais. “Estamos há cerca de 30 anos em um limbo, com lentidão nos investimentos. O Brasil é vulnerável economicamente há pelo menos 15 anos e não dispõe de capital suficiente para investimentos pesados em infraestrutura”, analisa.
Luz no fim do túnel
Apesar das incertezas, há um possível efeito positivo para o Brasil. Com o aumento da concorrência no mercado internacional, o preço do petróleo pode recuar. “Para nós, pode ser bom, porque a queda no preço do petróleo pode reduzir o custo do frete, refletir nos preços das mercadorias e ajudar, inclusive, no controle da inflação”, conclui o especialista.