Ferrovias
Projeto logístico transforma Palmeirante em centro de fertilizantes
Caso de ferrovia-indústria da concessionária VLI evita trem vazio, atrai indústrias para o entorno do terminal e transforma a dinâmica econômica do município do Tocantins
Um projeto que alia logística ferroviária, desenvolvimento industrial e impacto social está mudando a realidade do município de Palmeirante, no Tocantins. Liderado pela VLI, companhia de soluções logísticas que integra ferrovias, portos e terminais, o polo industrial que vem se consolidando no entorno do Terminal Integrador de Palmeirante nasce de uma estratégia simples, mas eficiente: aproveitar os trens que transportam grãos para o Porto do Itaqui (MA) e garantir que eles voltem carregados com fertilizantes importados.
O gerente geral de Relacionamento Institucional e Governamental da VLI, Anderson Abreu, deu detalhes do projeto em entrevista ao BE News concedida durante o Tocantins Export, realizado nos dias 15 e 16, em Palmas. Segundo ele, a proposta inicial foi desenvolvida em parceria com a COPI, operadora portuária com atuação no Itaqui.
“Nós conseguimos desenvolver uma logística perfeita com a COPI. É o transporte de grãos do Brasil Central para o porto, ou seja, uma carga de exportação, e um transporte de fertilizantes a partir da importação. Então, o projeto nasce da tentativa de fazer com que o trem, ao invés de voltar do Porto do Itaqui para buscar grãos com vagões vazios, volte carregado com fertilizantes”, afirma.
A partir dessa base logística, a VLI viu a oportunidade de ampliar o escopo da operação. “Com o passar do tempo, nós identificamos, junto com parceiros, a oportunidade de desenvolver um polo industrial para a mistura desse fertilizante, transformando-o em adubo e trazendo ganhos principalmente de valor compartilhado”, explica Abreu. Essa verticalização permite adaptar os fertilizantes às características de cada tipo de solo da região, o que melhora o rendimento agrícola e reduz custos com transporte.
Empresas como a norte-americana Mosaic (maior produtora dos Estados Unidos de potássio e fertilizante de fosfato) e a brasileira Ultracargo (pertencente ao Grupo Ultra e líder nacional na armazenagem de granéis líquidos) já estão implantando unidades industriais nas imediações do terminal. Segundo Abreu, a planta da Mosaic, por exemplo, terá capacidade de produzir até 1 milhão de toneladas de fertilizantes por ano.
O polo é voltado prioritariamente ao mercado interno. “A expectativa é que o estado do Tocantins se torne autossuficiente em fertilizantes. Além disso, espera-se que o polo industrial possa fornecer adubo de acordo com a necessidade de cada terreno para não só o Tocantins, mas também para o sul do Pará, o nordeste de Mato Grosso e regiões próximas do Maranhão”, explica.
O modelo que está sendo implantado em Palmeirante remete a experiências históricas de desenvolvimento regional. “Esse projeto, na sua concepção, é inovador pelo caráter da ferrovia-indústria. A ferrovia-indústria foi muito notada nos séculos XIX e XX, quando as ferrovias proviam o crescimento de regiões não industrializadas”, observa Abreu.
Segundo ele, a maior parte das áreas onde as fábricas estão sendo instaladas pertence à VLI e fica no entorno do terminal. “É uma relação de crescimento natural, em que todas as empresas envolvidas enxergaram oportunidades de desenvolvimento de negócios, trazendo uma série de efeitos colaterais positivos.”

Terminal Integrador Palmeirante (Tipa), da VLI, se destaca como case inédito de ferrovia-indústria no Brasil (crédito: VLI/Divulgação)
Um desses ganhos é ambiental: com a mistura sendo feita localmente, reduz-se o número de viagens de caminhões. “Antes, os caminhões precisavam transportar o fertilizante e agora já transportam o adubo com o fertilizante misturado. Um outro ganho é a redução da emissão de CO₂. Isso contribui para um ganho ambiental.”
Mas o impacto mais visível está na vida das pessoas da região. “Eu vejo esse projeto como muito importante do ponto de vista social porque ele desenvolve a comunidade local, traz renda e cria empregos de qualidade na formação de mão de obra técnica, com salários mais elevados, fazendo com que a região, que tinha antes a Prefeitura como maior provedora de empregos, tenha outros provedores de mão de obra e contratação de serviços”, afirma Abreu. “Pessoas que muitas vezes estariam dentro de um guarda-chuva assistencialista do governo hoje podem desenvolver atividade profissional.”

De acordo com Anderson Abreu, o polo industrial é voltado prioritariamente ao mercado interno. “A expectativa é que o estado do Tocantins se torne autossuficiente em fertilizantes”. Foto: Leopoldo Figueiredo
Modelo replicável
A VLI acredita que esse modelo pode ser replicado em outras regiões do Brasil. “A atividade do Polo Industrial de Palmeirante é um exemplo fantástico de transformação da logística brasileira. A VLI tem operações ferroviárias muito bem estabelecidas. Porém, sabemos que outros leilões e outras oportunidades de desenvolvimento de novos negócios podem vir e vamos estar sempre atentos porque o valor compartilhado é o que a VLI tem como princípio”, afirma o gerente.
Ele também acredita que o setor ferroviário brasileiro como um todo tem adotado boas práticas nesse sentido. “A ferrovia é responsável por cerca de 20% da matriz de transporte brasileira e contribui para fins de emissão de CO₂ com cerca de 3% de todo o montante que é transportado. Para além do ganho ambiental, eu acho que as ferrovias estão sempre olhando para o ganho social. E eu vejo que há outros bons exemplos realizados pelos nossos parceiros, como a Vale, a Rumo, a MRS.”