Rio de Janeiro Export
Rio de Janeiro aposta em corredores ferroviários para ampliar competitividade logística
Integração, recuperação de trechos ociosos e foco em cargas de maior valor agregado despontam como caminhos para viabilizá-los
O Rio de Janeiro ocupa uma posição estratégica no escoamento de cargas minerais e busca consolidar seu papel como hub logístico nacional a partir de novos projetos ferroviários. A avaliação é de Delmo Pinho, assessor da presidência da Fecomércio-RJ, que defende uma leitura mais pragmática sobre o desenvolvimento do modal no país.
Pinho participou de um dos painéis técnicos do Fórum Estadual Rio de Janeiro Export, evento promovido pelo Grupo Brasil Export, que debateu as perspectivas e desafios do setor da infraestrutura e da logística no estado.
“O Rio de Janeiro não é detentor de jazidas de minério de ferro, nem de manganês nem de carvão. Mas ele é um importante hub logístico do setor mineral e os números estão aí para comprovar. Nós temos embarques importantíssimos, de grande destaque a nível mundial, de minério de ferro aqui no estado”, afirmou.
Apesar dessa posição, Pinho destaca que a sustentabilidade econômica das ferrovias brasileiras ainda depende fortemente de cargas de grande volume. “A maioria das nossas grandes ferrovias depende basicamente do transporte de minério. A viabilidade financeira e econômica depende disso, porque o transporte ferroviário, no mundo da carga geral, é muito cíclico e não tem se perpetuado de maneira permanente, principalmente num país carente de recursos como o Brasil”, explicou o executivo.
Nesse contexto, o especialista ressalta que o modal ferroviário exige escala e planejamento para se viabilizar. “Estamos falando de distâncias acima de 300 quilômetros, muitas vezes acima de 800. Senão você não faz o payback do investimento, que é caro. Não dá para achar que só a iniciativa privada vai cobrir esse intervalo de investimento, isso não é realista”, afirma.
Enquanto isso, o transporte rodoviário segue dominante no país, mas Delmo Pinho defendeu que a migração para os trilhos deva ocorrer de forma seletiva. “Em determinados eixos é altamente conveniente promover essa substituição, mas isso tem que ser feito com muito cuidado”.
Hoje, segundo Pinho, três corredores ferroviários estruturam o estado: o eixo voltado ao minério vindo de Minas Gerais, a ligação com São Paulo e um terceiro trecho, em grande parte desativado, que pode ganhar nova função.
A reativação de parte dessa malha é o foco de um projeto que busca criar um novo corredor ferroviário voltado ao transporte de café e calcário. “Nós estamos chamando de corredor do café e do calcário, que são cargas que podem recuperar economicamente um segmento hoje ocioso”, explicou.
O plano prevê a recuperação de cerca de 250 quilômetros de linhas entre o Sul de Minas Gerais e o sul fluminense, além da implantação de um terminal rodoferroviário entre Barra Mansa e Volta Redonda. A proposta também busca integrar regiões produtivas relevantes.
“O Sul de Minas é uma região hiper rica. Varginha é um dos principais centros mundiais de comercialização de café, mais até do que Santos. E essa produção precisa de logística eficiente”, destaca.
A iniciativa já foi apresentada ao governo federal, mas enfrenta entraves políticos, especialmente na destinação de recursos. “Nós levamos isso ao Ministério dos Transportes, houve entusiasmo. Existem investidores interessados, mas o problema é que, no Brasil, muitas vezes a política vale mais do que a técnica”, critica.
Segundo Pinho, parte do financiamento poderia vir da devolução de trechos ferroviários pelas concessionárias, mas há disputa sobre a aplicação desses valores. “Resolveram colocar esse dinheiro em outros lugares, onde tem pouca carga. A gente não faz conta, a gente sonha — e sonhar não paga investimento”, afirma.
Orçado em cerca de R$ 1,2 bilhão, o projeto depende de uma combinação entre recursos públicos e privados.