Aeroportos
Salas multissensoriais transformam a experiência de neurodivergentes
Em meio a um ambiente marcado por estímulos intensos, aeroportos brasileiros vêm incorporando salas multissensoriais para TEAs
Passageiros com Transtorno do Espectro Autista (TEA) enfrentam nos aeroportos um ambiente de alta estimulação sensorial, com ruídos constantes, grande circulação de pessoas, filas e anúncios sonoros frequentes, o que pode dificultar o processo de embarque e permanência nos terminais, afetando também familiares e acompanhantes.
Diante desse cenário, o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) criou o Programa de Acolhimento ao Passageiro com TEA, com o objetivo de adaptar a experiência aeroportuária a esse público. Entre as principais iniciativas está a implantação de salas multissensoriais em terminais do país.
Segundo dados do programa, a meta inicial de 20 unidades até 2026 já foi superada. Atualmente, são 22 espaços em funcionamento e 11 áreas de acomodação, com previsão de outras oito unidades até 2027.
Salas multissensoriais
Nos aeroportos, esses ambientes são projetados para reduzir estímulos externos e oferecer um espaço de regulação emocional antes do embarque. A proposta é auxiliar passageiros neurodivergentes a lidar com a espera e com a intensidade do ambiente aeroportuário.
A experiência tem impacto direto na rotina de famílias que viajam com crianças autistas. A mãe de Diogo Lima, de 6 anos, relata que situações comuns em aeroportos podem funcionar como gatilhos para o filho, especialmente em momentos de atraso ou grande movimentação.
Segundo ela, a existência de um espaço de apoio muda a dinâmica da viagem.”Viajar com o Diogo sem ter essa sala para facilitar, para ele se regular, é de fato uma loucura”, afirma.
Além do público atendido, profissionais que atuam nesses espaços também destacam mudanças na abordagem do atendimento. No Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, equipes relatam que as salas contribuem para tornar o ambiente mais acolhedor e menos estressante.
A estagiária de pedagogia Caroline Martins avalia que o espaço tem relevância para a experiência dos passageiros e para o trabalho das equipes. Já Daniel Correia da Silva, que atua no atendimento aos usuários, destaca o caráter de acolhimento além da espera pelo voo.

Caroline Martins e Daniel Correia equipe da sala multissensorial do Aeroporto Santos Dumont (RJ) Foto: Divulgação / Mpor
Capacitação de equipes
O programa também inclui ações de capacitação de equipes aeroportuárias, com treinamentos, guias e cartilhas voltados ao atendimento de passageiros com TEA, com foco em comunicação e adaptação de conduta.
Segundo Eunice Cerqueira, coordenadora de Facilitação da Infraero, o objetivo é garantir que os passageiros encontrem um ambiente verdadeiramente acessível. “Queremos proporcionar aos passageiros um ambiente mais acolhedor, garantindo um espaço onde eles possam se autorregular enquanto aguardam o horário do voo.”
Entre os usuários do espaço está a estudante Melissa de Souza, que conhece bem os desafios causados pelo excesso de estímulos em ambientes movimentados. Para ela, a existência de um local preparado para oferecer conforto e segurança faz toda a diferença. “Ter um lugar para deitar-se, buscar uma posição confortável, realmente é muito bom.”
A iniciativa integra um movimento mais amplo de adaptação da infraestrutura aeroportuária às demandas de acessibilidade, com foco na experiência do passageiro em todas as etapas da viagem.