Ferrovias
São Paulo volta a ter trem para Sorocaba após quase 30 anos de espera
Projeto prevê investimento de R$ 10,5 bilhões em parceria público-privada e promete ligar as duas cidades em até uma hora
O estado de São Paulo deu um passo concreto para encerrar quase três décadas sem transporte ferroviário de passageiros entre a capital e Sorocaba. No dia 4 de maio, a Secretaria de Parcerias em Investimentos (SPI) apresentou a proposta formal do Trem Intercidades (TIC) Eixo Oeste, que vai religar as duas cidades por trilhos pela primeira vez desde 1998.
O projeto prevê investimento de R$ 10,5 bilhões, 88,7 quilômetros de extensão e a promessa de fazer o percurso em no máximo uma hora, menos da metade do tempo atual de ônibus pelas rodovias Castello Branco e Raposo Tavares.
A última composição de passageiros entre São Paulo e Sorocaba circulou quando os trens de longo percurso pararam de operar pela linha da antiga Estrada de Ferro Sorocabana (EFS). Na época, a viagem durava três horas, em razão das muitas paradas.
Desde então, o transporte entre as duas cidades passou a depender quase que exclusivamente das rodovias, onde o tempo médio de viagem de ônibus é de duas horas. Para quem vai de carro, o cenário não é diferente: as duas principais vias que ligam a região metropolitana de Sorocaba à capital estão entre as mais congestionadas do interior paulista.
“O projeto pretende resolver um gargalo de trânsito que a população de Sorocaba enfrenta todos os dias, sobretudo quem trabalha ou estuda em São Paulo ou vice-versa. As rodovias Castello Branco e Raposo Tavares são estruturalmente complicadas. Então, o TIC é inadiável”, afirmou o diretor da Companhia Paulista de Parcerias da SPI, Augusto Almudin.
DUAS MODALIDADES DE VIAGEM
O TIC Eixo Oeste terá dois tipos de serviço operando simultaneamente. O trem expresso fará o percurso direto entre as estações de São Paulo e Sorocaba, sem paradas intermediárias. Já o trem parador fará pausas em Carapicuíba, Amador Bueno e São Roque, com viagens a cada 15 minutos nos dias úteis. O serviço expresso terá uma viagem por hora. A integração com o transporte metropolitano ocorre em pontos estratégicos como Água Branca, Carapicuíba e Amador Bueno.
A tarifa adotada será quilométrica, proporcional ao trecho percorrido pelo passageiro. O teto estabelecido é de R$ 45 para quem fizer o trajeto completo entre Sorocaba e São Paulo — valor apresentado pelo governo como competitivo em relação ao preço da passagem de ônibus.
“Quem faz um trecho intermediário paga pelo trecho”, explicou Almudin. A estimativa do governo é atender 50,2 mil passageiros por dia útil até 2050.
Em Sorocaba, o projeto ainda prevê uma conexão com o futuro Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), iniciativa do próprio governo estadual que deve ter 25 quilômetros ligando as zonas leste e oeste da cidade, com 13 estações planejadas. O leilão desse ramal local deve ocorrer em 2028.
NOVO TRAÇADO
A ferrovia seguirá, sempre que possível, o leito da antiga Estrada de Ferro Sorocabana. A faixa de domínio da antiga linha, em sua maioria livre e desimpedida, será aproveitada como base. Trilhos, dormentes e rede aérea, porém, precisarão ser completamente refeitos. Alguns trechos do traçado original também terão de ser retificados para que o tempo de viagem de uma hora seja cumprido.
“Não dá para utilizar 100% da antiga Estrada de Ferro Sorocabana porque ela é muito sinuosa. Para cumprir o tempo de viagem de uma hora, será preciso retificar alguns trechos do traçado anterior”, explicou Almudin. O projeto prevê ainda a compra de 15 novos trens como parte da infraestrutura a ser implantada.
A estrutura de financiamento adotada será uma Parceria Público-Privada (PPP) com prazo de 30 anos, combinando recursos privados e públicos. O edital de licitação deve ser lançado ainda em 2026. O leilão e a assinatura do contrato estão previstos para 2027.
LICITAÇÃO
Para viabilizar o projeto, o governo paulista adotará o chamado diálogo competitivo — modalidade de licitação inédita no Brasil, inspirada em diretivas europeias de contratação pública.
O mecanismo funciona com os investidores e empresas sendo ouvidos antes do lançamento do edital definitivo, porém, a modalidade ainda precisa passar pelos conselhos dos programas de parcerias e desestatização do governo.