Portos
Seca pode parar navegação no Tapajós por até quatro meses
Governo prepara dragagem emergencial para evitar impactos no transporte de grãos, combustíveis e produtos na principal rota logística do Pará
A navegação no rio Tapajós, no Pará, pode ficar interrompida por até quatro meses caso uma seca severa reduza o nível das águas e comprometa o transporte pela hidrovia. Para evitar a paralisação de um dos principais corredores de exportação de grãos do país, o governo federal prepara uma dragagem emergencial para retirada de sedimentos em pontos críticos do rio.
A medida está relacionada às previsões de impactos do fenômeno El Niño em 2026 e 2027. Uma reunião deve ocorrer nos próximos dias na Presidência da República para discutir os riscos à navegabilidade, os impactos econômicos e as medidas necessárias para garantir a operação da hidrovia.
Segundo estimativas do governo, uma interrupção no transporte poderia afetar o escoamento de 3,1 milhões a 5 milhões de toneladas de soja e milho, gerando prejuízos entre R$ 510 milhões e R$ 850 milhões ao agronegócio. O aumento no custo do frete poderia chegar a R$ 250 por tonelada.
Além dos grãos, a paralisação ameaça o abastecimento de combustíveis na região. Cerca de 1,36 milhão de metros cúbicos do produto passam anualmente pelo corredor logístico do Tapajós, que atende 17 municípios, mais de 200 postos e aproximadamente 7,5 milhões de habitantes.
A dragagem será realizada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), órgão ligado ao Ministério dos Transportes, em sete trechos considerados críticos, ao longo de cerca de 300 quilômetros entre Miritituba e Santarém.
O serviço será feito entre a região onde estão concentrados grandes terminais de grãos e o porto de Santarém, ponto de embarque das cargas transportadas por barcaças para navios de maior porte.

O Tapajós é uma rota estratégica para o transporte de grãos, combustíveis, alimentos, medicamentos e outros produtos. Foto: Divulgação/Conafer
O governo classifica a intervenção como uma dragagem de manutenção, sem alteração da profundidade ou ampliação do canal de navegação. A avaliação é de que, por se tratar de uma manutenção da infraestrutura existente, a obra não dependeria de novo licenciamento ambiental.
O Ministério Público Federal (MPF) no Pará, porém, questiona a medida. O órgão recomendou ao Dnit que não inicie a dragagem antes da realização de licenciamento ambiental e de consulta prévia a povos indígenas, ribeirinhos e demais comunidades tradicionais.
A divergência está na classificação da obra. Enquanto o governo considera a intervenção uma manutenção da hidrovia, o MPF entende que o tamanho da operação exige análise ambiental e consulta às comunidades afetadas.
O Dnit afirma que o volume de sedimentos previsto para retirada foi reduzido em mais de 65% em relação ao planejamento inicial. O governo também negocia um acordo para que o serviço seja realizado sem custos diretos aos cofres públicos, por meio de uma parceria entre o órgão e a Associação Brasileira para o Desenvolvimento da Navegação Interior (Abani).
A urgência da operação ocorre diante das previsões climáticas que indicam alta probabilidade de ocorrência do El Niño em 2026, com possibilidade de um evento mais intenso. O fenômeno pode provocar redução das chuvas na Amazônia, queda no nível dos rios e dificuldades para a navegação.
Dados do Serviço Geológico do Brasil (SGB) e da Agência Nacional de Águas (ANA) apontam que o cenário deste ano se aproxima do observado antes da seca extrema de 2023/2024, quando a bacia do Tapajós registrou redução significativa das chuvas e níveis críticos do rio.
O Tapajós é uma rota estratégica para o transporte de grãos, combustíveis, alimentos, medicamentos e outros produtos que abastecem cidades e comunidades da região. Uma eventual transferência das cargas para caminhões aumentaria a pressão sobre as rodovias BR-163 e BR-230, elevaria os custos logísticos e poderia acrescentar cerca de 55 mil toneladas de emissões de CO₂.