Nordeste Export
Tarifa dos EUA pressiona produção e gera alerta social no Nordeste
Painel discutiu efeitos da nova política tarifária norte-americana sobre setores como o de mel
A imposição de uma tarifa de 50% pelos Estados Unidos a produtos brasileiros já começou a afetar cadeias exportadoras do Nordeste. No último dia do Nordeste Export, realizado em Teresina (PI), os impactos econômicos e sociais da medida foram debatidos com foco especial sobre os efeitos na produção de mel, frutas e carne, produtos de grande relevância para a geração de renda na região.
Segundo o CEO do Grupo Sama, Samuel Araújo, a sobretaxa inviabiliza as exportações de mel orgânico, especialmente no Piauí e no Ceará, principais polos da atividade no Nordeste. “Essa tarifa é punitiva, ela simplesmente tira a gente do cenário do negócio”, afirmou. O executivo destacou que a dependência do mercado norte-americano é alta: cerca de 85% do mel exportado pela empresa vai para os EUA. Além da tarifa, o setor enfrenta problemas estruturais, como a baixa produtividade provocada por anos seguidos de seca. “Na seca, nós tivemos de 15% a 20% de produção dos anos normais”.
Araújo também chamou atenção para os impactos sociais. Segundo ele, a apicultura tem papel fundamental na geração de renda para pequenos produtores rurais. “Eu considero (a produção de mel) o programa social mais pujante no Nordeste. Calcula-se meio milhão de famílias vivendo da apicultura.”
A vice-presidente financeira do Porto de Pecém (CE), Rebeca Oliveira, explicou que a linha marítima para os EUA, em operação contínua há 24 anos, tem grande importância para o emprego local. “Você não tem uma máquina que colhe mel. E você não tem uma máquina que colhe as frutas, por exemplo. As pessoas são necessárias nesse processo.”
Islano Marques, gestor da Área Internacional e de Mercado da Federação das Indústrias do Estado do Piauí, também destacou que o impacto da tarifa atinge toda a cadeia produtiva da apicultura. “Desestruturou toda a cadeia do mel. O impacto é não só econômico, mas de cunho social muito forte. Grande parte dos exportadores depende do fornecimento de pequenos produtores.”
Para enfrentar a crise, o setor produtivo busca articulação institucional. Segundo Marques, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) está organizando uma missão empresarial aos EUA, com apoio do Departamento de Comércio norte-americano. Ele informou que a CNI também entregou ao governo federal um documento com propostas emergenciais, como a criação de uma linha de crédito via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) com juros entre 1% e 4% ao ano, ampliação dos prazos de ACC (Adiantamento sobre Contrato de Câmbio) e ACE (Adiantamento sobre Cambiais Entregues), e isenção temporária de tributos federais.