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Vale avalia estratégia para disputar Porto Sudeste sem comprar participação
Mineradora estuda contrato take-or-pay para garantir volumes de minério ao terminal sem necessariamente entrar no capital do ativo
A Vale avalia uma estrutura para participar da disputa pelo Porto Sudeste, em Itaguaí (RJ), sem realizar desembolso direto de caixa para a aquisição do terminal. Segundo informações do jornal Valor Econômico, a alternativa em discussão prevê um contrato de longo prazo no modelo “take-or-pay”, pelo qual a mineradora se comprometeria a garantir volumes mínimos de minério de ferro ao terminal, mesmo que não utilize integralmente a capacidade contratada.
O acordo daria maior previsibilidade às receitas do Porto Sudeste e poderia auxiliar o grupo comprador na estruturação do financiamento e na definição do valor do ativo. A alternativa também busca reduzir possíveis questionamentos concorrenciais relacionados à participação direta da Vale no terminal, já que a mineradora possui outras estruturas portuárias na região.
Pela estrutura em avaliação, a Vale apoiaria a proposta liderada pela Global Infrastructure Partners (GIP), gestora controlada pela BlackRock, e pela Gerdau, sem necessariamente adquirir participação societária no Porto Sudeste. Os volumes e o prazo do eventual contrato ainda estão em negociação, e a estrutura final não foi definida.
Inicialmente, a Vale fazia parte diretamente do consórcio formado com GIP e Gerdau, que apresentou uma das duas propostas vinculantes pelo ativo.
A outra oferta foi apresentada pela I Squared Capital, gestora americana que vem ampliando a busca por ativos portuários no Brasil. A empresa já tentou adquirir participações em ativos como a Wilson Sons e a CLI (Corredor Logística e Infraestrutura), sem concluir as operações.
Questão concorrencial
A possível participação da Vale na aquisição do Porto Sudeste vinha levantando questionamentos entre concorrentes e participantes do mercado. A mineradora já controla estruturas relevantes para o escoamento de minério de ferro no Rio de Janeiro, incluindo o Terminal da Ilha Guaíba e o terminal da Companhia Portuária Baía de Sepetiba.
O Porto Sudeste, por sua vez, atende produtores de minério de ferro de Minas Gerais, inclusive empresas que não possuem estruturas próprias de escoamento. Por isso, funciona como alternativa aos terminais verticalizados das grandes mineradoras.
A substituição da participação societária por um contrato de “take-or-pay” poderia reduzir o risco concorrencial associado à entrada da Vale no capital do terminal. Ainda assim, a estrutura poderá ser analisada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), dependendo do prazo do acordo, dos volumes reservados e dos impactos sobre o acesso de outras mineradoras à infraestrutura.
Uma das preocupações levantadas nas discussões é que, caso o volume garantido à Vale seja elevado, os efeitos concorrenciais poderiam ser semelhantes aos de uma participação societária direta.
O tema também se relaciona à disputa envolvendo o ITG-02, novo terminal de minério de ferro no Porto de Itaguaí, localizado entre estruturas da Vale e da CSN. A área, conhecida como “Área do Meio”, era reivindicada por mineradoras de menor porte que dependiam de terminais verticalizados para escoar sua produção.
A Antaq chegou a propor restrições à participação das grandes mineradoras. Em 2024, porém, o Tribunal de Contas da União (TCU) determinou que uma limitação desse tipo dependeria de manifestação prévia do Cade. A restrição foi retirada e o órgão antitruste não chegou a se manifestar sobre o caso. O leilão acabou vencido pela Cedro Participações, única proponente.
Capacidade
O Porto Sudeste tem capacidade atual para movimentar cerca de 50 milhões de toneladas por ano e possui licença para uma futura expansão para até 100 milhões de toneladas. Em 2025, o terminal movimentou 27,8 milhões de toneladas, acima dos 21,9 milhões de toneladas registrados no ano anterior.
A capacidade ainda disponível poderia ser parcialmente ocupada pelo eventual contrato com a Vale.
O processo de venda do ativo, controlado pela Mubadala Capital e pela Trafigura, é discutido desde pelo menos 2024 e também envolve a Mineração Morro do Ipê, responsável pelas minas Ipê e Tico-Tico, em Minas Gerais. A expectativa dos vendedores é concluir a operação ainda em 2026.
O ativo é considerado atraente por participantes do setor devido ao potencial de demanda de longo prazo e à geração de receitas em dólar. Entre os pontos de atenção estão a atual dependência da movimentação de minério de ferro, a importância da Morro do Ipê para a ocupação do terminal e volumes abaixo das expectativas.
No primeiro semestre deste ano, a Porto Sudeste do Brasil registrou receita líquida de R$ 2,7 bilhões, queda de 22% em relação ao mesmo período do ano anterior. O prejuízo foi de R$ 1,4 bilhão, ante resultado negativo de R$ 285 milhões no primeiro semestre anterior.
A Stonepeak, que avaliava a aquisição em parceria com a australiana M Resources, deixou a disputa e não apresentou proposta vinculante.
Procurada, a Vale reiterou ao BE News o posicionamento divulgado em abril, segundo o qual avalia oportunidades de investimento de acordo com suas prioridades estratégicas e que as decisões de alocação de capital passam por processo de avaliação e pelas regras de governança da companhia. A empresa afirmou ainda que manterá o mercado informado sobre eventuais fatos relevantes.
Mubadala, Trafigura e I Squared Capital não comentaram.
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