Aviação civil: recordes e desafios
A marca histórica de 130 milhões de passageiros projetada para o encerramento deste ano sela, de forma definitiva, o processo de superação dos traumas impostos pela crise sanitária global ao setor aéreo. Os dados atualizados pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e sistematizados pelo Ministério de Portos e Aeroportos revelam que o Brasil não apenas recuperou o fôlego, mas expandiu a base de usuários em um ritmo vigoroso. O salto de 9,3% na movimentação total entre janeiro e novembro, em comparação ao ano anterior, é o indicador mais nítido de que o modal aéreo retomou sua trajetória como motor da integração nacional.
O crescimento é particularmente expressivo no segmento internacional, que registrou uma alta de 13,6%, atingindo a marca de 25,8 milhões de viajantes. Esse fluxo, concentrado em grande parte nos terminais de Guarulhos (SP) e Galeão (RJ), reflete uma reinserção mais ativa do País no comércio e no turismo globais, com destaque para a conectividade com parceiros estratégicos como Argentina, Estados Unidos e Chile. No âmbito doméstico, os 91,9 milhões de assentos comercializados confirmam que o avião consolidou-se como instrumento essencial de logística e mobilidade para a classe média e para o setor produtivo.
Diante de tamanha efervescência, torna-se imperativo defender os investimentos e as políticas públicas necessárias para o desenvolvimento do transporte aéreo. O acréscimo de 30 milhões de passageiros em um triênio impõe uma pressão inédita sobre a infraestrutura aeroportuária. E o desenvolvimento sustentável do setor depende principalmente da capacidade de o Estado e a iniciativa privada garantirem segurança operacional, eficiência tecnológica e, fundamentalmente, a modernização dos terminais regionais para descongestionar os grandes eixos saturados como Congonhas e Brasília (DF).
A importância do modal aéreo transcende o simples transporte de pessoas trata-se de um vetor de desenvolvimento socioeconômico que agiliza cadeias de suprimentos e fomenta economias locais. Por essa razão, a continuidade de políticas que facilitem o crédito para as companhias e a manutenção de marcos regulatórios estáveis são exigências para que o custo da operação não inviabilize a democratização do acesso. O crescimento de 8% nos voos domésticos sinaliza que há espaço para expansão, desde que o ambiente de negócios proteja o setor de volatilidades excessivas no preço do querosene de aviação.
A concentração de 29% dos voos internacionais em uma única porta de entrada, o Aeroporto de Guarulhos, acende o debate sobre a necessidade de descentralização e fortalecimento de outros aeroportos internacionais, como Florianópolis (SC) e Brasília. O equilíbrio da malha aérea é o que garantirá que o recorde de 130 milhões de pessoas não se torne um gargalo de atendimento, mas sim um novo patamar de eficiência.
O fortalecimento do transporte aéreo é uma escolha estratégica para um país de dimensões continentais. Defender a expansão desse modal significa apostar em uma infraestrutura que conecte o interior aos grandes centros e o Brasil ao mundo. A manutenção desse ciclo virtuoso exige vigilância constante sobre a qualidade dos serviços e a celeridade nas obras de ampliação, para que o recorde de hoje seja apenas o ponto de partida de uma aviação civil mais robusta e inclusiva.