A avenida americana e o horizonte global
A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de anular o “tarifaço” imposto por Donald Trump não é apenas uma vitória jurídica; é, como bem definiu o vice-presidente Geraldo Alckmin, a abertura de uma “avenida” para o comércio brasileiro. Ao derrubar sobretaxas que chegavam a 50% em setores estratégicos, a justiça americana devolve ao Brasil a igualdade de condições para competir no seu segundo maior mercado consumidor. No entanto, este novo cenário exige mais do que celebração: demanda um equilíbrio fino entre o aproveitamento imediato das oportunidades e a proteção estratégica contra a dependência externa.
O otimismo do Governo Brasileiro fundamenta-se na lógica da isonomia. Se a nova tarifa global de 10% será aplicada a todos os países, o Brasil mantém sua competitividade relativa intacta, livrando-se do peso desproporcional que antes onerava quase 40% de suas exportações. Setores como motores, madeira, café solúvel e frutas encontram agora um corredor de exportação mais fluido, essencial para o crescimento do PIB e a estabilidade do dólar. O fato de o Brasil não ser um gerador de déficit comercial para Washington é o trunfo diplomático que deve ser usado à exaustão nas negociações que, conforme anunciado, continuam.
Contudo, a história e a retórica de Donald Trump ensinam que avenidas comerciais podem ser fechadas tão rápido quanto foram abertas. A sinalização de que a Casa Branca buscará “novos caminhos legais” para proteger a indústria americana deve servir de alerta aos exportadores brasileiros. O Brasil não pode permitir que o alívio momentâneo nas barreiras americanas gere uma acomodação perigosa. A dependência excessiva de um único parceiro, seja ele qual for, é uma vulnerabilidade que o País não pode mais aceitar em um mundo de geopolítica volátil e protecionismo ascendente.
Portanto, a estratégia nacional deve ser ambidestra: enquanto os exportadores aceleram para ocupar os espaços deixados pela queda das sobretaxas nos EUA, o Itamaraty e o Ministério do Desenvolvimento (MDIC) precisam redobrar esforços na abertura de novos mercados. A busca por acordos com blocos do Sudeste Asiático, a expansão no Oriente Médio e a consolidação de parcerias na África não são apenas alternativas, mas seguros contra o risco político.
O Brasil deve aproveitar a “avenida” americana para fortalecer sua indústria e acumular divisas, mas mantendo os olhos fixos no horizonte global. A verdadeira autonomia econômica não nasce da concessão de um aliado, mas da multiplicidade de parceiros. O sucesso comercial brasileiro em 2026 dependerá da nossa capacidade de ser um parceiro indispensável para Washington, sem nunca deixar de ser um competidor ágil em cada canto do globo.