terça-feira, 06 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

A baía do amanhã: entre o potencial de Singapura e o gargalo do imediatismo

A Baía de Todos-os-Santos sempre foi o berço da economia baiana, mas o debate ocorrido na última sexta-feira, dia 10, no Fórum Bahia Export, em Salvador (BA), revelou que o estado ainda subutiliza essa joia logística. Ao destacar que 95% do algodão baiano — a segunda maior produção da commodity no País — costumava viajar mil quilômetros até o Porto de Santos (SP) em vez de ser escoado localmente, os especialistas apontaram para uma ferida aberta na competitividade local. Defender a transformação da baía em um hub estratégico é defender que a riqueza produzida na Bahia gere dividendos, empregos e eficiência dentro do próprio estado.

Essa mudança passa pela diversificação da matriz de transportes. A dependência crônica das rodovias encarece o frete, sobrecarrega a infraestrutura e reduz a margem de lucro do produtor. O dado apresentado no debate é emblemático: a recente inversão de fluxo, com 25% da produção de algodão passando a sair pelo Tecon Salvador, prova que a demanda existe e é latente. O que falta não é carga, mas sim conectividade. Para que a Baía de Todos-os-Santos funcione como um eixo nacional, ela precisa estar integrada a ferrovias e hidrovias que conectem o Oeste baiano ao litoral de forma fluida.

Nesse contexto, comparar a Baía de Todos-os-Santos com Singapura não é um exercício de vaidade, mas de visão de futuro. Singapura não se tornou um polo global por medidas imediatistas, mas por planos de Estado que atravessaram décadas. Governantes e o setor produtivo de hoje devem ter a grandeza de investir em projetos cujos frutos, talvez, sejam colhidos pelas próximas gerações. O imediatismo é o maior inimigo da logística de alta performance.

Também vale destacar que a integração entre o polo agrícola de Luís Eduardo Magalhães e os terminais da capital é o elo que faltava para consolidar esse ecossistema. Quando o setor público e a indústria se unem na Fieb para planejar esse longo prazo, a mensagem ao mercado é clara: a Bahia quer parar de exportar impostos e logística para outros estados. O potencial da Baía de Todos-os-Santos é, de fato, incrível, mas ele só será plenamente realizado quando a mentalidade de “curto prazo” for substituída por uma política de infraestrutura perene.

O Porto de Salvador e o Porto de Aratu não podem ser apenas pontos no mapa; eles devem ser as engrenagens de um sistema que entenda a geografia baiana como sua maior vantagem competitiva. Mantendo a trajetória de inversão de fluxos e investindo na modernização dos terminais de contêineres, o sonho de uma “Singapura brasileira” no Nordeste deixará de ser uma ousadia retórica para se tornar a realidade econômica de um estado que aprendeu a valorizar suas próprias águas.

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