terça-feira, 06 de outubro de 2026
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Luiz Dias Guimarães

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À beira do vulcão

Não sei o quanto é imutável o destino. Sei que os erros são evidências do fracasso e que a indignação é fruto da solidária alma. Mas quando me deparo com o infortúnio, penso no quanto conspira o universo quando parece querer pôr um fim, como na trágica morte de Juliana, e até manipula o tempo.

O clima em nada ajudou e o pai de Juliana, retido em um aeroporto como consequência da guerra, certamente desesperado, tinha o ímpeto de esticar seus braços à menina como se fosse um bebê prestes a despencar do berço.

Só que este berço não tinha só três palmos do chão. Os filhos crescem e já não mais surte efeito a ordem para não debruçar no perigo. O sentido da aventura para alguns é mais forte que a prudência e o destino, que parecem superar o paternal aviso para evitar os vulcões, as alturas, os precipícios, enfim, de inúmeras formas no cotidiano da vida.

O infortúnio, quando nos aparece, comove o mundo. E vulcões são ícones da superação e do mistério. Há 1.500 vulcões no planeta, dos quais 627 ativos nos últimos 10 mil anos. São vulcões, vivos ou dormentes, à nossa vista, que nos atraem, assustam, encantam ou matam.

Apequeno-me com a notícia do triste fim dessa menina. Mas penso também nas fatalidades que acontecem além das nossas vistas. São os vulcões imateriais, escondidos na intimidade das nossas aflições, que frequentemente eclodem ou sorrateiramente atraem para suas profundezas, alguém que não precisou estar tão alto nem tão longe para gerar trágico desenlace.

São vulcões sutis que circundam nossa rotina, às vezes até disfarçados de falsa alegria, e que, num belo dia, se revelam e levam até a derradeiro caminho como a morte autoprovocada ou simplesmente gerada pela profunda dor do coração. Afinal há muitas maneiras de morrer.

Quando lemos sobre uma menina que realizava um sonho de caminhar à beira de um vulcão instagramável, nos unimos em torno dos esforços da salvação. Mas muitas vezes ao nosso lado espreita o perigo, e alguém caminha trôpega e sofridamente na tênue beira do precipício.

Algumas vezes somos sensíveis só ao que arregaça a atenção coletiva e o que paira silente, no recôndito mundo particular, não nos atinge. Bom seria se pudéssemos estar atentos, nos desvencilharmos da inebriante rotina e interpretarmos os sinais daquele que caminha sem conseguir se equilibrar à beira de seu próprio vulcão.

Quando nos damos conta do perigo e estendemos os braços junto ao berço que balança, logramos sucesso, e provamos que mutável pode sim, ser o destino.

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