A crise do sol e do vento: o Nordeste e o dilema da transição energética
A possibilidade de redirecionamento de investimentos no setor de energia renovável, com o risco de suspensão de R$ 38,8 bilhões em aportes no Nordeste, acende um sinal de alerta sobre a sustentabilidade do modelo de expansão energética brasileira. Vive-se um paradoxo amargo onde a região que possui o melhor combustível natural do mundo, com abundância de ventos constantes e radiação solar, está perdendo competitividade para estados com menor potencial geofísico, mas maior proximidade dos centros de consumo. Defender a correção desses rumos não é apenas uma questão regional, mas uma necessidade estratégica para que o Brasil não sabote sua própria vocação de potência verde.
A importância estratégica do Nordeste na matriz elétrica é inquestionável, mas o setor enfrenta agora o custo da distância e a saturação da rede. O fenômeno do curtailment, ou corte forçado da geração, tornou-se o grande vilão dos investidores, pois de nada adianta produzir energia limpa e barata se ela não consegue ser escoada para o Sul e Sudeste ou se o sistema ordena o desligamento das usinas por falta de capacidade de transmissão. Esse desperdício gera prejuízos diretos que explicam a devolução de outorgas de 141 usinas solares em 2025, representando um retrocesso de quase R$ 19 bilhões em capital que simplesmente evaporou.
A gravidade da crise atual deriva também de uma transição regulatória considerada punitiva pelas entidades do setor. A Medida Provisória 1304/2025, embora busque solucionar a intermitência das fontes renováveis, é criticada por condicionar o benefício fiscal do Reidi à instalação compulsória de sistemas de armazenamento em baterias. Ao exigir essa tecnologia de forma acelerada, o Governo eleva o custo de capital a níveis que podem inviabilizar novos projetos. Somam-se a isso as resoluções da Aneel que encareceram o uso da rede para usinas distantes do consumo, funcionando como um pedágio proibitivo que impulsiona a migração de empresas para estados como Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, onde o sol e o vento são menos intensos, mas os custos tributários e de frete elétrico são menores.
É incoerente que, em plena era da transição energética, o Governo ainda favoreça termelétricas a gás e carvão em leilões de reserva de capacidade, enquanto as renováveis amargam insegurança jurídica. O Brasil corre o risco de imobilizar sua fortuna geológica se não destravar pautas como o programa nacional de Data Centers, que poderiam servir como âncoras de consumo para absorver o excesso de geração nordestina.
A infraestrutura energética de 2026 precisa ser integrada e inteligente, tratando o armazenamento como um futuro a ser incentivado e não como uma barreira de entrada imposta. Se as regras não forem equilibradas, o Nordeste verá seu potencial se transformar em um monumento à ineficiência regulatória, enquanto o País pagará mais caro por fontes de energia mais poluidoras.