terça-feira, 06 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

A diplomacia que se faz nos bastidores

Há uma tentação recorrente na cobertura de relações internacionais: supor que problemas complexos entre países se resolvem em encontros entre seus líderes, como se a química pessoal entre dois presidentes pudesse destravar disputas construídas, em ambos os lados, por meses de análise técnica, decisões administrativas e processos legais formais. A expectativa em torno de um possível encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump na cúpula do G7, em Évian-les-Bains, é o mais recente capítulo dessa tentação. E o governo brasileiro está certo em não alimentá-la.

A agenda bilateral entre Brasil e Estados Unidos tem, hoje, dois pontos de tensão concretos. O primeiro é a proposta dupla de tarifas sobre exportações brasileiras: uma de 25%, fundamentada em alegações de práticas comerciais desleais, e outra de 12,5%, vinculada a acusações de trabalho forçado, ambas amparadas na Seção 301 da legislação comercial americana. O segundo é a classificação de organizações criminosas brasileiras, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), como organizações terroristas pelos Estados Unidos, decisão com implicações jurídicas, policiais e diplomáticas que vão muito além da retórica de combate ao crime organizado.

Nenhuma dessas questões será resolvida por uma conversa informal de corredor entre dois chefes de Estado. As tarifas seguem um rito administrativo formal, com prazo legal definido, 15 de julho, e negociações técnicas em curso entre as equipes comerciais dos dois países. A classificação das facções como organizações terroristas é uma decisão já oficializada, debatida internamente no governo americano por meses, e que dificilmente seria revertida por pressão política pontual; mais provável, e mais produtivo, é que o tema seja absorvido pela cooperação técnica entre as estruturas de segurança pública dos dois países, que, segundo o próprio governo brasileiro, continua em curso independentemente da disputa tarifária.

O BE News entende que o governo brasileiro acerta ao recusar a tentação de transformar um encontro de cúpula em vitrine diplomática sem substância. Os precedentes recentes da relação bilateral, a visita de Lula à Casa Branca e a reunião realizada em Kuala Lumpur, mostram que avanços reais ocorrem quando há tempo para discussão detida, troca de documentos, definição de métodos e prazos entre equipes ministeriais. Uma “trombada” de minutos em corredores de Évian, ainda que simbolicamente relevante para a fotografia diplomática, não substitui esse tipo de trabalho. E correr para forçar esse encontro, como sugeriram especulações sobre uma eventual antecipação da viagem presidencial, teria sinalizado fragilidade numa negociação que, justamente, exige fortaleza.

O que está em jogo, no fim, é uma questão de tempo e de prioridade. Restam pouco mais de um mês até o prazo de 15 de julho. Esse período deve ser usado, pelo Itamaraty, pelo Ministério da Fazenda e pelas equipes técnicas de comércio exterior, para esgotar todas as vias de negociação disponíveis nos foros adequados, antes que a decisão americana se torne irreversível. É nesse trabalho, silencioso e tecnicamente denso, que se decide se as exportações brasileiras enfrentarão tarifas punitivas em julho, não em uma fotografia tirada nos Alpes franceses.

A diplomacia que resolve problemas raramente é a diplomacia que aparece nas manchetes. O Brasil tem, neste momento, prazo definido, canais abertos e um adversário negocial que também não tem interesse em romper de forma definitiva uma relação comercial bilionária. Usar bem essas próximas semanas, com substância, persistência e foco nos fóruns técnicos certos, vale infinitamente mais do que qualquer aperto de mãos diante das câmeras.

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