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Roberta Lopes da Cruz Antonio

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A economia da indignação e a lógica do engajamento a qualquer custo

Nem toda provocação merece resposta e nem toda polêmica exige um comentário (isso é uma lição para a vida, aliás, não apenas para o digital). Em determinadas situações, a decisão mais inteligente não é rebater, mas retirar o incentivo que sustenta aquele modelo de produção de conteúdo.

O algoritmo não sabe quando você está aplaudindo. Também não sabe quando você está indignado. Para ele, atenção é atenção. Isso significa que a sua indignação pode estar financiando exatamente o conteúdo que você gostaria de eliminar da internet.

Vivemos em uma economia em que a atenção se tornou um dos ativos mais valiosos do mundo digital. Plataformas disputam segundos do nosso tempo, criadores de conteúdo disputam nossa interação e empresas disputam nossa permanência na tela. Nesse ambiente, o algoritmo exerce um papel decisivo ao selecionar o que será mostrado para cada usuário. Mas há um aspecto desse funcionamento que ainda passa despercebido por grande parte das pessoas: algoritmos de recomendação não possuem senso moral. Eles não sabem distinguir, por si só, se um conteúdo gerou milhares de comentários porque foi admirado ou porque provocou revolta. O que conseguem identificar é que aquele material mobilizou pessoas, reteve atenção e produziu um elevado nível de interação.

Essa lógica cria um incentivo extremamente poderoso. Se aquilo que mais prende a atenção tende a alcançar maior distribuição, cresce também a tentação de produzir conteúdos desenhados não para informar, educar ou agregar valor, mas simplesmente para provocar reações intensas. É por isso que tantas vezes nos deparamos com publicações que parecem absurdas, ofensivas ou intelectualmente desonestas. Em muitos casos, a pergunta correta talvez não seja “como alguém pode pensar dessa forma?”, mas sim “será que essa pessoa realmente acredita no que publicou ou apenas descobriu que a indignação gera alcance?”.

Não é coincidência que vídeos de violência sejam acompanhados de perguntas óbvias como “o que você achou disso?” ou, ainda, que afirmações manifestamente controversas sejam lançadas sem qualquer compromisso com um debate sério. O objetivo frequentemente não é obter conhecimento, mas comentários. Não é promover reflexão, mas retenção. Cada resposta indignada, cada discussão nos comentários, cada compartilhamento acompanhado de uma crítica pode funcionar como um sinal de que aquele conteúdo conseguiu capturar atenção. E atenção é exatamente o recurso que os sistemas de recomendação procuram identificar para decidir o que merece alcançar mais pessoas.

O efeito perverso dessa dinâmica é que usuários bem-intencionados acabam sendo transformados em instrumentos involuntários de uma estratégia de amplificação. Ao acreditar que estão combatendo uma ideia absurda, muitas vezes estão fornecendo exatamente o combustível que aquele conteúdo precisava para continuar circulando. A indignação passa a ser monetizada e a revolta se torna uma métrica. A consequência disso é a de que o debate público acaba sendo contaminado por incentivos que premiam o choque em vez da qualidade.

Existe ainda um segundo efeito, menos visível, mas igualmente preocupante. Os algoritmos aprendem continuamente com nosso comportamento. Quanto mais tempo dedicamos a determinado tipo de conteúdo, quanto mais comentamos, compartilhamos ou interrompemos nossa navegação para observá-lo, maiores podem ser os indícios de que aquele assunto desperta nosso interesse. Pouco importa que esse interesse tenha sido motivado por repulsa. O sistema registra atenção. E atenção frequentemente influencia futuras recomendações. Em outras palavras, ao reagirmos repetidamente a conteúdos que detestamos, podemos acabar ensinando a plataforma a nos entregar ainda mais materiais semelhantes.

Essa realidade impõe um desafio que vai muito além da tecnologia. Trata-se de uma questão de educação digital. Da mesma forma que aprendemos a identificar golpes eletrônicos ou proteger nossos dados pessoais, precisamos desenvolver competências para compreender como nossa própria atenção pode ser manipulada. Nem toda provocação merece resposta e nem toda polêmica exige um comentário (isso é uma lição para a vida, aliás, não apenas para o digital). Em determinadas situações, a decisão mais inteligente não é rebater, mas retirar o incentivo que sustenta aquele modelo de produção de conteúdo.

Isso não significa defender o silêncio diante de temas relevantes ou abandonar o debate público. Significa compreender que existem estratégias deliberadamente construídas para explorar nossas emoções e transformar indignação em engajamento. Quando identificamos esse mecanismo, passamos a exercer uma forma diferente de cidadania digital: escolhemos conscientemente onde investir nosso tempo, nossa atenção e nossa interação.

Existe uma conhecida reflexão segundo a qual o maior inimigo do amor não é o ódio, mas a indiferença. Curiosamente, essa lógica também oferece uma importante lição para o ambiente digital. Diante de conteúdos concebidos apenas para manipular emoções e alimentar algoritmos, a resposta mais eficaz talvez não seja a revolta. Talvez seja justamente a indiferença. Nenhum comentário. Nenhum compartilhamento. O mínimo possível de atenção. Porque, na economia da atenção, ignorar também pode ser uma forma de responsabilidade.

Roberta Lopes da Cruz Antonio escreve quinzenalmente para o BE News. Seus textos são publicados às quartas-feiras.

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