A estratégia de desenvolvimento da Petrobras
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, apresentou nessa quarta-feira, dia 23, na J.Safra Investment Conference, em São Paulo (SP), a estratégia que confirmou o que o mercado já percebia: a estatal brasileira está em modo agressivo de expansão exploratória. Oito contratos de partilha de produção na Costa do Marfim na semana passada, memorando de entendimento com a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos de Moçambique assinado nessa quarta-feira, avanço nos estudos do bloco colombiano GUA-OFF-0 após descoberta de gás no poço Sandia-1 em agosto, campos maduros da Bacia de Campos com 82% do potencial ainda por produzir e perspectiva de autossuficiência em diesel no próximo quinquênio. É um portfólio que qualquer grande empresa de petróleo do mundo reconheceria como estratégia de crescimento. O que o Brasil precisa avaliar é se essa estratégia está alinhada com as prioridades nacionais que vão além do balanço da Petrobras.
A expansão para a África é a frente que mais exige análise cuidadosa. A Costa do Marfim e Moçambique têm bacias com características geológicas que Chambriard descreve como similares às brasileiras, especificamente ao pré-sal, cujo modelo de exploração em águas profundas a Petrobras domina com proficiência rara no mundo. Faz sentido que a estatal leve esse conhecimento para outros ambientes onde ele gera vantagem competitiva real. O ponto que o Governo Federal e o Congresso precisarão monitorar é a alocação de capital: uma empresa com capacidade de investimento limitada que expande simultaneamente para Costa do Marfim, Moçambique, Colômbia, Margem Equatorial brasileira e campos maduros da Bacia de Campos, está fazendo apostas que precisam ser hierarquizadas. Quando Chambriard diz que “onde tiver similaridade com o Brasil na África, vamos estudar”, a questão para o acionista controlador — o Governo Federal — é: essa exploração africana compete com o desenvolvimento da Margem Equatorial, ou o complementa com diversificação de risco de portfólio?
A Margem Equatorial é o dado mais estratégico da agenda doméstica da Petrobras — e o que recebeu menos detalhe na apresentação dessa quarta-feira. A descoberta no poço Morpho, anunciada em agosto, foi o evento que confirmou a potencialidade da bacia da Foz do Amazonas. Mas a Margem Equatorial é uma fronteira que exige licenciamento ambiental de alta complexidade — o Ibama já negou um pedido anterior —, consulta prévia a comunidades costeiras e indígenas em área sensível e desenvolvimento de tecnologia de resposta a emergências em ambiente marinho tropical que o País ainda não tem em escala. A pergunta que o investidor na J.Safra e o cidadão brasileiro precisam responder juntos é: em que prazo a Margem Equatorial se torna produção real, e quanto capital a Petrobras está alocando para garantir esse prazo?
A perspectiva de autossuficiência em diesel no próximo quinquênio é, provavelmente, o anúncio de maior impacto imediato para a economia brasileira, entre os apresentados por Chambriard. O Brasil importa diesel em volumes relevantes, o que cria vulnerabilidade com as oscilações de preço internacional — a mesma vulnerabilidade que se manifestou na crise do QAV no primeiro semestre, quando a alta do petróleo no Oriente Médio se transmitiu rapidamente para o custo operacional das companhias aéreas. A autossuficiência em diesel reduziria essa transmissão de preço para o segmento de transporte rodoviário de cargas, que responde por 65% do escoamento de bens no Brasil, e diminuiria a pressão sobre o balanço de pagamentos em momentos de crise energética global. Que a presidente não tenha comentado o risco de Trump suspender exportações americanas de diesel para o Brasil é uma omissão que o mercado notou — e que sugere que a resposta da companhia a esse cenário ainda está sendo formulada internamente.
A estratégia da Petrobras apresentada nesta semana é coerente como estratégia empresarial. E o Brasil precisa garantir que ela seja igualmente coerente como política energética nacional. A estatal que investe em Costa do Marfim e Moçambique enquanto o Governo Federal debate o papel dos minerais críticos, o desenvolvimento do SAF, o hidrogênio verde e a descarbonização do transporte marítimo é a mesma empresa que o presidente Lula cobrou, em julho, para ser a financiadora da inovação brasileira. Essas duas dimensões — a empresa que busca reservas globalmente e a estatal que financia a transição energética nacional — precisam ser geridas com clareza sobre o que é prioridade quando o capital não é ilimitado. A Petrobras mostrou que sabe o que quer como empresa. O Governo Federal precisa mostrar que sabe o que quer da Petrobras como política de Estado.