terça-feira, 06 de outubro de 2026
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Opinião

Editorial

A estratégia de São Sebastião

O Porto de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, colocou em operação o primeiro Port Community System (PCS) de um complexo portuário público brasileiro estruturado nesse modelo. A plataforma integra 50 empresas e 47 usuários. E já ultrapassou mil transações no primeiro mês de funcionamento. Ela concentra informações, permite acompanhamento de processos e documentos e, ainda, oferece gestão de acessos e agendamentos, monitoramento da movimentação terrestre de cargas e consulta a indicadores operacionais. Foi desenvolvida pela equipe de TI do próprio porto, a partir de demandas levantadas junto à comunidade portuária, e custou R$ 400 mil em aprimoramentos específicos — desconsiderando sistemas preexistentes que foram integrados à plataforma. Não tem custo para os usuários. Em termos de relação custo-benefício para infraestrutura digital portuária, é difícil encontrar uma comparação mais favorável no setor público nacional.

O Port Community System é uma categoria de plataforma que portos europeus e asiáticos operam há décadas. Hamburgo, Roterdã, Singapura e Antuérpia têm sistemas de integração de comunidade portuária que coordenam armadoras, terminais, despachantes, agentes de carga, órgãos aduaneiros e autoridades portuárias em tempo real, reduzindo o tempo de liberação de cargas, eliminando documentação redundante e criando visibilidade sobre o estado de cada operação que todos os atores do sistema podem consultar simultaneamente. O Portal Único do Comércio Exterior brasileiro avançou na direção da integração aduaneira, mas a integração da comunidade portuária no nível operacional, o que acontece dentro do porto, entre os atores que movimentam a carga, permanecia fragmentada na maior parte dos complexos nacionais. São Sebastião mudou isso, com tecnologia desenvolvida internamente e sem esperar por financiamento externo ou por solução tecnológica pronta.

O modelo de desenvolvimento adotado pela Companhia Docas de São Sebastião (CDSS), controlada pelo Governo de São Paulo, tem características que merecem análise: demandas levantadas junto à comunidade antes do desenvolvimento, equipe interna de TI como executora, adesão voluntária sem custo para os usuários e plataforma concebida para evolução contínua. Cada uma dessas escolhas reflete aprendizados que sistemas de tecnologia desenvolvidos de fora para dentro, com consultoria externa que entrega produto acabado sem engajamento dos usuários, frequentemente ignoram. 

O PCS de São Sebastião tem valor que vai além de suas funcionalidades específicas. Ele é a prova de que a digitalização da comunidade portuária é possível com recurso modesto, equipe interna e método correto de engajamento dos usuários e, principalmente, que não é necessário aguardar pelo sistema perfeito, pelo financiamento completo ou pela solução internacional para começar a construir integração digital. A Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) e o Ministério de Portos e Aeroportos deveriam mapear o que foi feito em São Sebastião, a metodologia de levantamento de demandas, a arquitetura da plataforma, os módulos desenvolvidos, e avaliar o que pode ser replicado ou adaptado nos demais portos públicos organizados brasileiros. Não necessariamente copiado integralmente, porque cada porto tem características operacionais distintas, mas aproveitado como referência de método e como argumento contra a paralisia que frequentemente acompanha projetos de transformação digital na administração pública.

A declaração do presidente da CDSS, Ernesto Sampaio, de que a plataforma foi concebida como ambiente de adesão voluntária e desenvolvimento contínuo é a chave que mais importa para o futuro do sistema. Plataformas de comunidade portuária falham quando são impostas sem engajamento real dos usuários. A adoção não acontece, os dados não são alimentados e o sistema se torna um formulário eletrônico sem valor de rede. Funcionam quando os usuários percebem benefício concreto em participar. E esse benefício concreto começa com funcionalidades simples que resolvem problemas reais imediatamente. Gestão de agendamentos, monitoramento de movimentação terrestre e acompanhamento de pendências documentais são exatamente esse tipo de funcionalidade: simples, verificável e com retorno imediato para quem usa. O sistema que começa bem nesses pontos básicos tem trajetória para incorporar integração mais complexa à medida que a confiança da comunidade cresce.

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