A estratégica diplomacia da Logística
A agenda intensa de visitas institucionais realizada pelo ministro Tomé Franca na última semana, percorrendo as confederações nacionais do Transporte (CNT), da Agricultura e Pecuária (CNA) e da Indústria (CNI), marca um posicionamento estratégico claro da nova gestão do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor): a infraestrutura brasileira não será resolvida em gabinetes isolados, mas na intersecção entre o poder público e as entidades que movem o PIB nacional. Ao alinhar os projetos de 2026 com as demandas do transporte, do agronegócio e da indústria, a pasta sinaliza que a prioridade é transformar a “sopa de letras” regulatória em fluidez logística real e redução do Custo Brasil.
A importância desta articulação envolve a multimodalidade e estratégias para ampliar a eficiência do mercado. O diálogo com a CNT teve como foco a modernização e a qualificação do trabalhador; com a CNA, o tema central foi o escoamento da safra e a urgência das hidrovias; já na CNI, o debate centrou-se na inovação portuária e na segurança jurídica das concessões. Essa visão 360 graus é o que permitirá ao Brasil deixar de ser um país de modais competidores para se tornar uma nação de modais complementares. Como destacou o ministro, o sucesso de um leilão como o do Aeroporto do Galeão (R$ 2,9 bilhões), no Rio de Janeiro (RJ), é apenas o começo. A eficiência depende da conectividade com o interior.
A convergência entre o MPor e as confederações nacionais aponta para três eixos fundamentais que devem nortear o ano de 2026. O agronegócio e a indústria foram unânimes em apontar a expansão da malha hidroviária como a “fronteira final” da competitividade. Utilizar rios como o Madeira, Tocantins e a Hidrovia Verde para escoar a produção reduz custos operacionais e a pegada de carbono, alinhando o Brasil às metas globais de sustentabilidade. Programas como o Porto Sem Papel e as Caravanas da Inovação Portuária (em parceria com a Agência Nacional de Transportes Aquaviários, Antaq, e CNI) buscam eliminar gargalos burocráticos. A meta é que o porto brasileiro funcione como um sistema inteligente e integrado, e não apenas como um depósito de carga.
E o acordo de cooperação com a CNT para qualificação profissional e saúde do trabalhador reconhece que a modernização tecnológica de portos e aeroportos é inútil se não houver mão de obra preparada e valorizada para operá-la.
A reunião com a CNA foi talvez a mais emblemática. O escoamento da produção agropecuária brasileira ainda enfrenta entraves que drenam a rentabilidade do produtor. A disposição do MPor em utilizar a expertise técnica da CNA para desenhar novas rotas hidroviárias é uma medida pragmática. Se o agro é o motor do País, as hidrovias e portos precisam ser as engrenagens que suportam essa potência.
O balanço apresentado na CNI, com a consolidação de concessões de longo prazo, reforça a confiança do setor industrial. A estabilidade institucional é o que permite que projetos de dragagem, derrocamento e sinalização náutica avancem, garantindo que o interior do país esteja conectado aos grandes mercados globais de forma segura e previsível.
O périplo de Tomé Franca por Brasília não foi apenas um gesto de cortesia. Foi a construção de uma base de apoio necessária para levar ao martelo da B3 os 36 leilões de portos e aeroportos previstos para este ano. Quando o Governo ouve o setor produtivo, o risco de “leilões desertos” ou projetos desconectados da realidade diminui drasticamente. O Brasil da logística eficiente está sendo desenhado agora, na mesa de negociações, entre quem produz, quem transporta e quem governa.