A farsa da libertação
É inegável que parte significativa da população venezuelana rejeita o governo de Nicolás Maduro. E há razões concretas para isso. No entanto, não cabe a potências estrangeiras decidir quem deve governar a Venezuela, muito menos impor soluções pela força.
Os Estados Unidos voltaram a tratar a Venezuela não como um país soberano, mas como um território disponível à coerção política, econômica e militar. Ao longo dos últimos anos, declarações, sanções, ameaças e operações anunciadas de forma ostensiva revelam uma estratégia que ignora princípios elementares do Direito Internacional e da autodeterminação dos povos.
É inegável que parte significativa da população venezuelana rejeita o governo de Nicolás Maduro. E há razões concretas para isso. No entanto, não cabe a potências estrangeiras decidir quem deve governar a Venezuela, muito menos impor soluções pela força. Esse debate, com todas as suas contradições, pertence exclusivamente ao povo venezuelano. Qualquer ação externa que ultrapasse esse limite representa uma violação da soberania nacional e da legalidade internacional.
Os Estados Unidos nunca esconderam que sua política em relação à Venezuela está menos associada à defesa da democracia e mais ligada a interesses estratégicos e econômicos, em especial no setor energético e mineral. O discurso moralizante, frequentemente utilizado para justificar sanções e pressões, já foi empregado em outros cenários – como Iraque, Líbia e Síria – com resultados desastrosos para as populações locais. A lógica é conhecida: enfraquecer governos considerados hostis e abrir espaço para interesses geopolíticos e corporativos, sobretudo em um contexto de disputa global com a China.
Nesse cenário, a atuação de setores da oposição venezuelana que defendem ou legitimam a intervenção estrangeira ultrapassa o campo da divergência política interna e entra em uma zona perigosa. Oposição não é sinônimo de submissão externa. Defender mudanças políticas por meio da ação de uma potência estrangeira, ainda mais associando isso à exploração de riquezas nacionais, representa uma ruptura grave com o princípio da soberania.
Convém lembrar que o colapso da economia venezuelana não pode ser explicado apenas por erros internos. As sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, o congelamento de ativos no exterior, restrições financeiras e o isolamento do sistema internacional tiveram impacto direto e profundo sobre a vida cotidiana da população. Assim como ocorre há décadas com Cuba, a estratégia foi asfixiar economicamente o país na esperança de provocar um colapso político, pouco importando o sofrimento imposto à sociedade.
Na América do Sul, as reações a esse tipo de intervenção revelam divisões preocupantes. Enquanto alguns governos adotam uma postura alinhada à política externa norte-americana, o Brasil, sob a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, manteve uma posição coerente com sua tradição diplomática: a defesa do diálogo, da paz e da não intervenção. Essa postura não significa apoio irrestrito ao governo Maduro, mas respeito às regras do sistema internacional e à estabilidade regional.
Causa perplexidade, por outro lado, a postura de lideranças políticas brasileiras que se dizem patriotas, mas celebram sanções, ameaças e intervenções contra países vizinhos. São os mesmos que aplaudem medidas econômicas estrangeiras mesmo quando elas prejudicam diretamente a indústria nacional, o emprego e os trabalhadores brasileiros. O patriotismo, nesses casos, parece terminar onde começa a conveniência ideológica.
A Venezuela não é apenas seu governo. É um povo complexo, plural e resistente, que pode criticar seus dirigentes e, ao mesmo tempo, rejeitar a tutela de potências estrangeiras. Muitos venezuelanos preferem enfrentar suas contradições internamente a ver seu país transformado em mais um laboratório de intervenções fracassadas.
Talvez alguns políticos brasileiros pudessem aprender com essa lição: soberania não é discurso de ocasião, é compromisso com princípios – inclusive quando eles exigem coragem para dizer não aos “países valentões”.