terça-feira, 06 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Editorial

A força feminina na nova infraestrutura

Nos últimos séculos, o horizonte dos portos brasileiros foi desenhado por uma mística de força bruta estritamente masculina. Entre o ranger dos guindastes e o peso das sacarias, a figura feminina era um detalhe administrativo, distante do convés e do costado. No entanto, neste 8 de março de 2026, o cenário que se descortina no Porto de Santos (SP) e em tantos outros complexos marítimos do País não é apenas de modernização tecnológica, mas também de uma necessária e irreversível evolução social. A chegada das mulheres à estiva — o coração pulsante da operação portuária — é o símbolo de que a competência técnica e a coragem não possuem gênero.

A defesa da equidade de gênero no setor de infraestrutura não é apenas uma pauta de justiça social; é uma estratégia de eficiência. A transição da estiva manual para a operação mecanizada e automatizada eliminou as barreiras físicas que, historicamente, serviam de pretexto para a exclusão. Hoje, com a tecnologia como aliada, o que o mercado exige é precisão, ética e capacidade de aprendizado. Quando mulheres ocupam o cais, o setor ganha em diversidade de perspectivas e em um ambiente de trabalho mais equilibrado e profissional.

Contudo, os números ainda denunciam o tamanho do desafio: apenas 17,8% dos trabalhadores portuários são mulheres. Para que esse percentual deixe de ser uma estatística tímida e se torne uma força representativa, é fundamental que o Governo e os órgãos de gestão, os Ogmos, mantenham e ampliem políticas de incentivo e formação. A abertura de editais e a diplomação de novas trabalhadoras avulsas são passos cruciais, mas a equidade real exige que o ambiente portuário se adapte, garantindo desde infraestrutura adequada até o combate rigoroso ao assédio e ao preconceito.

A trajetória dessas profissionais pioneiras revela que a mudança muitas vezes nasce no seio da própria família portuária, onde pais, maridos e irmãos começam a enxergar nas mulheres a continuidade de um legado de dedicação ao mar. Como bem afirmou a estivadora Aline de Jesus, de Santos, o exemplo deixado para as próximas gerações é o legado mais valioso: o de que a mulher pode e deve estar onde quiser, seja operando um guindaste de última geração ou liderando sindicatos e autarquias.

Defender a participação feminina na infraestrutura é defender um Brasil que não desperdiça talentos por dogmas do passado. O setor portuário, motor da nossa economia, só será plenamente moderno quando o gênero for irrelevante diante da capacidade de entrega. Que o “frio na barriga” relatado pelas novas estivadoras de Santos seja o combustível para uma conquista definitiva de espaço. O cais agora tem voz, rosto e força feminina, e o comércio exterior brasileiro só tem a ganhar com essa nova e crescente – felizmente – corrente de trabalho.

Compartilhe:
TAGS

Leia também