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Luiz Dias Guimarães

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A fortuna de Tatiana

“Tatiana, mais que bilhetes, vendia felicidade, nos brindando com a alegria de uma criança que trazia sempre às costas um ursinho rosa de pelúcia. Fizesse calor ou frio, tempo seco ou chuva, lá vinha Tati nos renovar seu sorriso”

Todas as noites aquela menina nos atiçava com a sorte bares adentro, oferecendo bilhetes da loteria. Poucos resistiam ao seu sorriso, mesmo não acreditando que ela pudesse estar com um papel premiado, exposto feito cartas de baralho abertas naquela mãozinha de oito anos.

Tatiana, mais que bilhetes, vendia felicidade, nos brindando com a alegria de uma criança que trazia sempre às costas um ursinho rosa de pelúcia. Fizesse calor ou frio, tempo seco ou chuva, lá vinha Tati nos renovar seu sorriso.

Ainda estávamos no finzinho do século passado, anos 90. Muito tempo se passou, perdi contato com ela até que, no inverno de 2022, voltei a um dos bares do circuito do sorriso. E lá estava ela vendendo bilhetes e distribuindo alegria.

Adorei reencontrar aquela guerreira, então com 31 anos e um filho de quatro, que manteve seu perfil mignon e veio me perguntar se lembrava dela. Mas claro, como esquecer tal coadjuvante de bons momentos da minha vida?

Transbordando felicidade, me contou que teve outras oportunidades de trabalho. Mas o que a faz feliz é oferecer a sorte. “Minha comunicação me ajuda”, explicou como se necessário fosse.

Tatiana certamente nunca saiu daquele quadrilátero que frequenta até hoje, diuturnamente, após descer de um ônibus vindo da periferia. Não foi preciso de lá sair para entender o segredo da vida e preservar a felicidade, aquela sensação que ela provoca nas pessoas.

Circulou um vídeo em que um rapaz estende seu punho fechado para cumprimentar jovens na rua. E a cada uma que retribui o toque, ele abre a mão e lhe entrega uma rosa, provocando óbvia alegria: “Muito obrigado pelo seu sorriso!”, agradece ele.

Tenho procurado praticar esse segredo do sucesso, contrariando meu jeito taciturno e macambúzio que pouco me valeu na vida.

Tatiana, solta, leve e feliz, traz consigo outra lição. Do simples. Beira a utopia praticar a simplicidade neste mundo do consumo. Difícil praticar o desapego. Claro que nosso modo de viver é condicionado por nossas circunstâncias, o trabalho, os relacionamentos e a família. Mas sempre imaginei que um homem e uma mulher deveriam ter apenas aquilo que pudessem carregar de uma única vez.

No tempo da pedra lascada era assim. E ninguém morria por não ter um Iphone 16 ou uma bolsa Louis Vuitton. Ou um SUV, ou pior ainda, uma lancha de dupla alegria, quando se compra e dela se desfaz.

Praticar a simplicidade e o desapego é um exercício constante que gostaria de me impor. Às vezes consigo, outras não. Viajei inúmeras vezes continentes afora. Mas uma de minhas melhores lembranças é de quando, jovem, fui de ônibus até Buenos Aires pela primeira vez, contando o restrito dinheiro. Mais ainda ao participar de um congresso em Goiânia e dividir com dois colegas um quarto na edícula de um chalé, onde dois dormiam e um ficava de plantão vigiando as aranhas penduradas nas velhas telhas expostas.

Os aracnídeos não tiravam o sentimento de felicidade que sentia por estar numa terra nova conhecendo lugares e gente novos também. E me sentindo livre e feliz.

Os nômades digitais, hoje cada vez em maior número, estimulados pela internet e a pandemia, bem como os praticantes do home office, estão tendo a chance de praticar o minimalismo, para viver mais com menos.

A terceira lição que Tatiana traz com seu sorriso é a de praticar o foco no que a faz feliz. Sempre lembro do fatalismo de Saint Exupèry, piloto de aviação que por infortúnio teve que mudar de vida, a ponto de, durante dois anos, cuidar de um posto do Correio Aéreo em pleno deserto do Saara, quando escreveu O Pequeno Príncipe. Escritor consagrado desde então, enviou uma carta à irmã freira, contando do seu sucesso. E para finalizar sentenciou: “Mas sabe, minha irmã, o que me faz feliz mesmo é voar. Creio que morre-se por aquilo que faz viver”. Logo finalmente conseguiu novo emprego de piloto. E por ironia ou vaticínio no primeiro voo perdeu-se nos céus.

Não temos uma única vocação. Aprendi isso com relativo sucesso. Mas sou convicto de que, sempre que possível, não podemos perder o foco.

Tatiana, com seus dentes hoje ostentando um luzidio aparelho, continua oferecendo a sorte. Que nunca me propiciou em seus bilhetes. Não importa. O que sempre comprei através do seu sorriso foi o exemplo de como ser tão feliz com tão pouco e sem perder o foco e o sentido de sua existência. Essa é a fortuna da menina Tatiana, que ela, graciosamente, continua distribuindo por aí.

Obrigado, amiguinha, por seu sorriso.

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