terça-feira, 06 de outubro de 2026
Dolar Com.
Euro Com.
Libra Com.
Yuan Com.
Opinião

Artigos

Candice La Terza

Clique para ver mais

Articulista

A IA pode substituir tarefas. Mas quem substituirá a presença do líder?

O investimento em IA não deveria caminhar sozinho. Deve vir acompanhado de investimento proporcional em comunicação e liderança. O futuro do trabalho não será humano contra máquina. Será humano usando máquina para liberar tempo e energia para aquilo que realmente exige humanidade.

Há uma ironia interessante no centro da revolução da inteligência artificial: quanto mais tecnologia temos para acelerar a comunicação, maior se torna o valor da comunicação genuinamente humana.

A IA já escreve, resume, traduz, analisa dados, organiza informações e executa tarefas que antes consumiam horas de trabalho. O movimento é irreversível. O próprio debate empresarial já migrou de “se” vamos usar IA para “como” vamos reorganizar o trabalho a partir dela.

Mas há uma distinção que todo líder deveria manter muito clara: a IA substitui tarefas. Não substitui pessoas em sua dimensão humana, relacional e estratégica.

E comunicação é uma das provas mais evidentes disso.

Imagine uma diretoria comunicando uma mudança delicada: reestruturação, revisão de metas, alteração de benefícios ou uma nova estratégia de negócio. É perfeitamente possível produzir, com IA, um comunicado impecável. Texto claro, objetivo, elegante, personalizado. Pode até antecipar dúvidas e gerar diferentes versões para diferentes públicos.

Ainda assim, um e-mail não produzirá o mesmo efeito de um líder entrando na sala, olhando para sua equipe e dizendo: “Precisamos conversar. Vou explicar o que está acontecendo, o que sabemos, o que ainda não sabemos e o que isso significa para nós”.

A diferença não está nas palavras. Está na presença.

O colaborador não observa apenas o conteúdo de uma mensagem. Observa o tom, a expressão, a disposição para ouvir, a coerência entre discurso e comportamento e a coragem do líder de permanecer na conversa quando surgem perguntas difíceis.

É justamente por isso que a inteligência artificial deveria provocar uma valorização, e não uma redução, da liderança humana.

O Work Trend Index 2025, da Microsoft, aponta para organizações formadas por equipes híbridas de pessoas e agentes de IA e defende um modelo “AI-operated, human-led”. O relatório também destaca que a transformação exige comunicação intencional, conversas honestas e investimento em capacitação. A tecnologia pode ampliar a capacidade de execução. A direção, o julgamento e a responsabilidade continuam dependendo das pessoas.

O desafio, portanto, não é ensinar líderes a escrever mais rápido. É ensiná-los a conversar melhor.

Porque o líder que apenas informa continuará produzindo informação. O líder que comunica produz entendimento.

Essa diferença aparece especialmente na liderança intermediária. A diretoria anuncia uma decisão. O comunicado é disparado. A apresentação é compartilhada. Mas quem explica a estratégia para o time? Quem traduz o impacto para a realidade daquela área? Quem responde ao “por quê”? Quem percebe que uma pessoa aparentemente silenciosa está, na verdade, insegura?

É aí que a comunicação deixa de ser ferramenta e passa a ser competência de liderança.

Empresas que desejam capturar o potencial da IA precisam fazer uma pergunta menos tecnológica e mais humana: estamos preparando nossos líderes para conduzir pessoas em um ambiente de transformação permanente?

Um gestor não deveria ser promovido apenas porque entrega resultados técnicos. Precisa saber dar contexto, ouvir, fazer perguntas, conduzir conflitos, reconhecer erros, sustentar conversas difíceis e transformar estratégia em ação compreensível.

A IA pode sugerir a resposta para uma pergunta. Não pode assumir a responsabilidade moral pela resposta.

Pode identificar padrões em milhares de mensagens. Não substitui a percepção de que determinado colaborador mudou seu comportamento.

Pode preparar uma apresentação. Não entra na sala para sustentar uma decisão impopular diante de pessoas que precisam confiar em quem as conduz.

Pode escrever “estamos juntos nessa”. Mas somente um líder presente consegue demonstrar que está.

Talvez essa seja uma das grandes ironias da era da inteligência artificial: quanto mais máquinas assumirem tarefas, mais as organizações precisarão de pessoas capazes de exercer aquilo que máquinas não vivenciam: empatia, presença, discernimento, coragem, influência e vínculo.

Por isso, o investimento em IA não deveria caminhar sozinho. Deve vir acompanhado de investimento proporcional em comunicação e liderança.

O futuro do trabalho não será humano contra máquina. Será humano usando máquina para liberar tempo e energia para aquilo que realmente exige humanidade.

E cabe ao líder decidir o que fazer com esse tempo.

Se a IA lhe permitir responder cinquenta e-mails em menos tempo, talvez a pergunta estratégica seja: quantas conversas importantes você finalmente poderá ter?

Porque, no fim, liderança não será medida pela quantidade de mensagens que conseguimos automatizar.

Será pela qualidade das conversas que escolhemos não automatizar.

A confiança nasce justamente nessas conversas humanas.

Cândice La Terza escreve quinzenalmente para o BE News, com seus textos publicados às quartas-feiras.

Compartilhe:
TAGS

Leia também