A ilusão do avanço e o colapso do sistema viário
Chegamos a mais uma edição do Fórum Santos Export e, como de costume, veremos projeções otimistas e discursos que celebram o futuro do Porto de Santos. Ouviremos sobre os recordes de movimentação de cargas e investimentos bilionários. No entanto, ao sairmos dos palcos para a realidade prática das estradas, percebemos um cenário de iminente colapso logístico. Há um descompasso alarmante entre o crescimento acelerado da movimentação portuária e a estagnação crônica dos acessos rodoviários que servem a Baixada Santista.
Este gargalo não é apenas físico, mas também burocrático e de planejamento. O Sistema Anchieta-Imigrantes (SAI), concebido em outra realidade demográfica e econômica, hoje suporta um fluxo de veículos 50% superior à sua capacidade projetada. Com a projeção de que o Porto de Santos movimente mais de 300 milhões de toneladas até 2040, a atual malha rodoviária simplesmente não resistirá.
A aguardada terceira pista da Rodovia dos Imigrantes, um projeto estimado em R$ 8 bilhões, recebeu apenas em março a licença ambiental prévia do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema). Um passo tímido para uma novela que se arrasta há anos. O projeto executivo sequer foi concluído e as obras físicas continuam distantes do horizonte imediato.
Paralelamente, o túnel submerso Santos-Guarujá, prometido há décadas como a redenção da mobilidade urbana e logística da região, enfrenta sucessivos adiamentos em seu cronograma de licitação e início de obras.
Essa contínua dependência de promessas e avanços lentos transformou o acesso ao maior porto da América Latina em um verdadeiro funil. Falhas no escoamento rodoviário geram congestionamentos quilométricos que estrangulam as vias urbanas de Santos e Cubatão, penalizando a qualidade de vida dos moradores locais e impondo prejuízos financeiros severos ao importadores, exportadores e transportadores, que lidam com custos crescentes de demurrage, perda de janelas de embarque e baixíssima produtividade.
Com esse apagão logístico e rodoviário, o comércio exterior brasileiro tem encontrado soluções na inteligência operacional instalada na zona secundária, no sistema retroportuário da Baixada Santista.
Os terminais e recintos alfandegados que constituem o retroporto deixaram de ser meras “válvulas de escape” para se consolidarem como o pulmão do Porto de Santos. Sem essas estruturas estratégicas, os terminais portuários de embarque e desembarque, instalados no cais, entrariam em colapso operacional imediato por absoluta falta de espaço físico para armazenagem e triagem de cargas.
O sistema retroportuário desempenha um papel multidimensional indispensável para a competitividade nacional e não podemos mais aceitar a narrativa de que o complexo santista ruma ao futuro enquanto suas vias de acesso e escoamento permanecem presas ao passado.
O crescimento projetado para as próximas décadas exige investimentos urgentes e céleres na infraestrutura rodoviária e no túnel submerso. Contudo, enquanto o poder público patina em licitações e licenciamentos arrastados, é o sistema retroportuário, com sua agilidade privada e capacidade de adaptação, que sustenta o fluxo de riquezas do país. Reconhecer, valorizar e desburocratizar a atuação destes terminais não é apenas uma necessidade logística, mas uma estratégia de sobrevivência econômica para o Porto de Santos e para o Brasil.

Bayard Umbuzeiro Neto escreve para o BE News quinzenalmente,
com seus artigos publicados sempre às quintas-feiras.