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Hudson Carvalho

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A infraestrutura invisível

O que 9 mil quilômetros pelas estradas americanas revelam sobre cultura, competitividade e educação executiva


“Não há grandes limites para o crescimento porque não há limites para a inteligência humana, a imaginação e a capacidade de criar.”
Ronald Reagan (1911-2004), ator, político norte-americano e 40.º presidente dos Estados Unidos

Em algum ponto entre Arkansas e Texas, enquanto um trem de mais de dois quilômetros cruzava o horizonte carregando centenas de contêineres, uma percepção se tornou inevitável: competitividade não nasce apenas de infraestrutura. Vem da cultura operacional, presente em toda a sociedade. Do produtor ao consumidor.

Foram aproximadamente 9 mil quilômetros percorridos em 17 dias, atravessando 9 estados americanos e 3 fusos horários. Uma verdadeira imersão operacional em uma das economias mais organizadas e competitivas do planeta.

Ao longo das estradas de Louisiana, Mississippi, Alabama, Tennessee, Arkansas, Texas, Novo México, Arizona e Califórnia, uma percepção chamou atenção. As rodovias americanas nem sempre impressionam pela qualidade do asfalto. Em muitos trechos há pistas simples, remendos e estruturas antigas.

O que impressiona é a organização. A sinalização é impecável. As regras são claras. O fluxo funciona. As pessoas respeitam o sistema — e fazem o sistema funcionar.

Outro detalhe chama atenção: em milhares de quilômetros percorridos, não vimos um único caminhão trafegando com escolta armada. Em uma economia continental que movimenta volumes gigantescos de mercadorias diariamente, isso diz muito sobre segurança operacional e confiança.

Essa talvez seja a maior diferença entre países que constroem obras e países que constroem instituições.

Obras são visíveis e podem ser inauguradas em poucos anos. Instituições e confiança, são invisíveis e levam gerações para consolidarem-se.

Infraestrutura física movimenta cargas, enquanto a infra institucional movimenta economias.

Vimos, com escrevi acima, trens intermodais transportando centenas de contêineres simultaneamente. Em alguns casos, mais de 500 unidades em uma única composição. Segundo a Association of American Railroads, as ferrovias americanas conseguem transportar uma tonelada de carga por mais de 750 quilômetros consumindo apenas cerca de 4 litros de combustível. Isso é ESG de verdade.

Há um detalhe importante: mesmo com ferrovias gigantescas, os caminhões continuam presentes em volume impressionante. Economias desenvolvidas não eliminam modais; integram modais.

A ferrovia domina grandes volumes e longas distâncias. O caminhão permanece essencial para distribuição regional, abastecimento industrial e última milha.

Essa é uma das maiores lições da infraestrutura americana: multimodalidade é arquitetura econômica.

A percepção ficou ainda mais clara na região de Permian Basin, a caminho de Odessa, no Texas — uma das maiores áreas produtoras de petróleo dos Estados Unidos.

É impressionante a quantidade de empresas fornecedoras de materiais, peças, equipamentos, veículos especiais e serviços voltados à indústria de óleo e gás. Atuando muitas vezes no mesmo segmento, competindo lado a lado em um ambiente de elevada demanda operacional.

O tamanho da produção petrolífera ajuda a explicar a dimensão desse ecossistema. Mas existe outro fator igualmente relevante: concorrência saudável, produz eficiência. Reduz custos, acelera inovação e aumenta produtividade. Economias maduras compreendem que, competitividade, não se sustenta protegendo empresas da concorrência, mas estimulando ambientes capazes de premiar eficiência operacional.

Chamou nossa atenção, que, mesmo sendo uma potência histórica do petróleo, a região já convive com grandes áreas de geração solar fotovoltaica e parques de energia eólica.

Isso revela algo importante sobre economias desenvolvidas: elas não abandonam suas vocações tradicionais, mas não ficam presas ao passado.

Competitividade sustentável exige adaptação tecnológica, diversificação energética e visão de longo prazo.

Outro aspecto muito visível e presente no cotidiano americano: a valorização do trabalho em todos os níveis. Do operador ferroviário ao atendente do posto de gasolina, percebe-se forte senso de responsabilidade operacional, disciplina e respeito ao cliente.

Essa percepção remete inevitavelmente a “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Max Weber.

Weber defendia que determinadas matrizes culturais ajudaram a formar sociedades baseadas em disciplina, responsabilidade individual e racionalidade econômica. Mais do que riqueza, essas características ajudaram a construir previsibilidade social.

E previsibilidade reduz custo, acidentes, desperdício, insegurança jurídica, atraso logístico e ineficiência operacional.

Economias desenvolvidas não se diferenciam apenas pela qualidade de suas obras, mas pela capacidade de organizar comportamento coletivo em torno de confiança, eficiência e produtividade.

O Brasil evoluiu enormemente nas últimas décadas. Mas ainda convive com elevado custo operacional decorrente da baixa previsibilidade institucional e da excessiva personalização das relações econômicas e sociais.

Em boa parte da América Latina, ainda convivemos com uma cultura orientada ao curto prazo. Busca-se frequentemente o resultado imediato, mesmo quando isso compromete produtividade futura e competitividade nacional.

Sociedades competitivas pensam em décadas à frente, o que nos leva ao ponto central dessa reflexão: educação.

Não apenas educação formal. Educação técnica, executiva, comportamental e cívica.

Sociedades altamente funcionais constroem gerações educadas para compreender que liberdade individual depende de responsabilidade coletiva. Isso aparece no trânsito, nas empresas, nos serviços e nas instituições.

Talvez esse seja o maior ativo invisível das economias desenvolvidas: capital humano.

Não apenas mão de obra qualificada, mas capacidade coletiva de cooperação, disciplina, pensamento sistêmico e liderança.

Capital humano é infraestrutura invisível.

Sem ele, rodovias se deterioram, portos perdem eficiência e instituições tornam-se frágeis. Com ele, até estruturas antigas conseguem operar com elevado nível de produtividade e competitividade.

É nesse contexto que o Grupo Brasil Export anunciará, nos dias 28 e 29 de maio de 2026, durante o Santos Export 2026, a criação da BE Academy (Brasil Export Academy), sua Divisão de Treinamento e Desenvolvimento Executivo.

A iniciativa nasce com um propósito claro: transformar experiência setorial em formação executiva de alto impacto.

Mais do que cursos, a BE Academy foi concebida para integrar benchmarking internacional, experiências práticas, networking qualificado e formação aplicada voltada aos setores portuário, logístico, energético, de infraestrutura e mineração.

Em um cenário global no qual competitividade depende diretamente da qualidade da gestão, do capital humano e da eficiência operacional, a formação executiva deixa de ocupar posição complementar. É o núcleo estratégico das organizações — e das próprias nações.

Estradas podem ser duplicadas. Portos e aeroportos podem ser ampliados. Ferrovias podem ser construídas. Desenvolvimento de liderança e valorização da educação exigem duro trabalho de formação.

Ao fim, competitividade não nasce apenas do aço, do concreto ou da tecnologia, mas da capacidade de formar pessoas preparadas para liderar sistemas complexos, adaptar-se às mudanças e construir instituições fortes.

Começamos com Reagan e terminamos com ele: “O futuro não pertence aos fracos; pertence aos corajosos.”

Hudson Carvalho é consultor em Estratégia de Gestão de Pessoas, diretor regional da Wisdom – Gestão Organizacional
(Desenvolvemos Pessoas e Processos) para o ABCD e Baixada Santista (SP) e diretor executivo da Elabore-Online – Pessoas e Resultados.
Ele escreve semanalmente para o BE News, com seus artigos sendo publicados às segundas-feiras

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