A inovação inútil
O problema é que, em ambientes altamente competitivos, parecer inovador tornou-se quase tão importante quanto produzir resultados. Empresas querem demonstrar modernidade. Governos desejam transmitir a imagem de vanguarda. Executivos procuram sinalizar atualização permanente. Em muitos casos, a inovação transforma-se em uma espécie de ativo reputacional.
A final da Liga dos Campeões deste ano produziu uma das imagens mais curiosas do futebol recente. Logo após o apito inicial, o Paris Saint-Germain executou uma saída de bola pouco convencional: um chute deliberado para a lateral.
A jogada, derivada do Rugby, fazia parte de uma estratégia cuidadosamente planejada para induzir o adversário a determinadas zonas do campo e criar oportunidades de pressão. A ideia foi imediatamente celebrada como uma demonstração de sofisticação tática. Talvez seja mesmo. Talvez produza vantagens competitivas reais. Mas o episódio desperta uma reflexão que vai muito além do futebol.
Por que a inovação passou a ser tratada como uma virtude em si mesma?
Vivemos uma época fascinada pela novidade. Em praticamente todos os setores da economia, fazer algo diferente frequentemente recebe mais atenção do que fazer algo melhor. Conceitos, metodologias e tecnologias são anunciados como inevitáveis muito antes de demonstrarem sua utilidade prática.
O futebol oferece inúmeros exemplos desse fenômeno. O tiki-taka transformou-se de ferramenta em ideologia. Os falsos camisas 9, os goleiros-líberos e as saídas curtas obrigatórias foram reproduzidos por equipes que nem sempre possuíam as características necessárias para executá-los. O sucesso de uma inovação específica passou a ser interpretado como prova de que ela deveria ser aplicada universalmente.
A mesma lógica pode ser observada em setores muito mais relevantes para a economia mundial.
Durante as últimas duas décadas, a automação portuária tornou-se um símbolo da modernidade logística. A promessa parecia irresistível: mais produtividade, menores custos, menos erros e maior previsibilidade operacional. Em apresentações corporativas, os benefícios pareciam evidentes.
Na prática, a realidade mostrou-se mais complexa.
Diversos terminais descobriram que a automação não é uma solução universal. Em muitos casos, os ganhos dependeram de condições muito específicas de escala, fluxo de carga, qualificação da mão de obra e maturidade tecnológica. Projetos concebidos para representar o futuro encontraram obstáculos que raramente apareciam nas planilhas de viabilidade.
O Porto de Auckland, na Nova Zelândia, tornou-se um dos casos mais emblemáticos. Após anos investindo na automação integral de seu terminal de contêineres, a administração portuária decidiu abandonar o projeto em 2022. O sistema não atingia os resultados esperados, os custos continuavam crescendo e novos investimentos seriam necessários sem garantia de sucesso.
A tecnologia não fracassou por ser tecnologicamente inadequada. Ela fracassou porque a realidade operacional mostrou-se mais difícil do que o previsto.
Mas talvez o exemplo mais revelador não venha dos portos, e sim da transformação digital da logística global.
Em 2018, a IBM e a Maersk lançaram o TradeLens, uma plataforma baseada em blockchain que prometia revolucionar o comércio internacional. A proposta era reduzir burocracia, digitalizar documentos, aumentar a transparência e eliminar ineficiências históricas da cadeia logística.
O projeto parecia reunir todos os ingredientes de uma inovação inevitável. Havia tecnologia de ponta. Havia uma das maiores empresas de tecnologia do mundo. Havia a maior companhia de navegação de contêineres do planeta. Havia apoio institucional, cobertura da imprensa especializada e entusiasmo de consultorias globais.
O TradeLens rapidamente tornou-se presença obrigatória em conferências, relatórios estratégicos e apresentações corporativas. Para muitos observadores, representava o futuro do comércio internacional.
Mas o futuro durou pouco.
Em 2022, IBM e Maersk anunciaram o encerramento da plataforma. O motivo foi surpreendentemente simples: apesar de toda a sofisticação tecnológica, o projeto não conseguiu alcançar adesão suficiente para se tornar economicamente viável.
A tecnologia funcionava. O problema era o comportamento humano.
Concorrentes hesitavam em compartilhar informações. Questões de governança permaneciam complexas. Incentivos econômicos nem sempre estavam alinhados. O que parecia uma revolução tecnológica revelou-se um desafio institucional.
O episódio oferece uma lição importante. Muitas inovações fracassam não porque a tecnologia seja ruim, mas porque seus criadores subestimam a complexidade do ambiente em que ela será aplicada.
Existe uma diferença fundamental entre inovação e novidade.
A inovação genuína resolve problemas. Ela reduz custos, aumenta eficiência, melhora processos ou cria oportunidades. Seus benefícios podem demorar a aparecer, mas acabam se tornando perceptíveis.
A novidade, por outro lado, muitas vezes vive da própria originalidade. Ela atrai atenção, gera manchetes, ocupa conferências e produz apresentações impressionantes. Mas sua contribuição prática permanece incerta.
O problema é que, em ambientes altamente competitivos, parecer inovador tornou-se quase tão importante quanto produzir resultados. Empresas querem demonstrar modernidade. Governos desejam transmitir a imagem de vanguarda. Executivos procuram sinalizar atualização permanente. Em muitos casos, a inovação transforma-se em uma espécie de ativo reputacional.
Questioná-la passa a ser visto como sinal de conservadorismo.
Talvez seja por isso que tantas organizações acabem perseguindo soluções sofisticadas para problemas que ainda não compreenderam completamente. A tecnologia passa a ser encarada não como ferramenta, mas como objetivo.
O paradoxo é que as transformações mais relevantes da história raramente foram as mais chamativas. Muitas ocorreram de forma gradual, quase invisível. Melhorias incrementais em processos, gestão, equipamentos e organização frequentemente geraram impactos muito maiores do que projetos apresentados como revolucionários.
A verdadeira inovação não precisa parecer revolucionária. Ela precisa funcionar.
Talvez a saída de bola do PSG venha a se consolidar como uma estratégia brilhante. Talvez desapareça dentro de alguns anos, como tantas outras modas táticas que passaram pelo futebol. O ponto central não está na jogada em si, mas na reação que ela provocou.
Vivemos uma era em que o diferente costuma receber mais atenção do que o eficiente. Em que a aparência de modernidade frequentemente antecede a comprovação dos resultados. Em que projetos são celebrados durante o lançamento e esquecidos durante a operação.
Antes de embarcar na próxima tendência tecnológica, talvez gestores, investidores e formuladores de políticas públicas devessem fazer uma pergunta simples: Estamos inovando para resolver um problema real ou apenas para demonstrar que somos inovadores?
A resposta pode explicar por que tantas ideias brilhantes acabam se tornando apenas notas de rodapé da história econômica.
Da saída de bola do PSG ao fracasso do TradeLens: quando a busca pela novidade se torna mais importante do que os resultados.
Valter Branco escreve semanalmente para o BE News, com seus textos publicados às segundas-feiras.